Resposta à crítica de Murray Bookchin

Este post é um comentário crítico em defesa do “anarco-primitivismo”, que penso não ter sido pensado em sua real profundidade por Bookchin. Neste comentário, me limito a analisar somente o que foi dito sobre o anarco-primitivismo no seguinte resumo: http://dissolvecoagula.blogspot.com.br/2016/02/anarquismo-critica-e-autocritica-de.html.


Não é preciso nenhuma nostalgia para criticar a civilização. Ela não precisa ser comparada ao passado, mesmo porque sociedades não civilizadas não pertencem ao passado, são contemporâneas. Para um exemplo: https://goblinrefuge.com/mediagoblin/u/ervadaninha/m/indigena-ailton-krenak-explana-sobre-civilizacao-e-modelo-industrial

Uma coisa que a maioria dos críticos do anarco-primitivismo não percebe é que o primitivismo não se trata de um apreço pelo passado, mas sim de uma consideração por outros modos de vida. A opressão às culturas indígenas antecede o capitalismo e não parece depender dele para se perpetuar. Se trata de uma questão que não pode ser respondida pela crítica ao capitalismo convencional. O capitalismo é uma das manifestações da civilização, assim como o capitalismo flexível é uma das manifestações do capitalismo. Bookchin não parece oferecer nenhum bom motivo para tratar a civilização com neutralidade, como se somente o capitalismo fizesse uso socialmente determinado de estruturas da vida social humana para criar opressões. O fato de que toda opressão hoje possa ser considerada capitalista não implica que esta dependa do sistema capitalista para ocorrer. Implica apenas no atual domínio do capitalismo global, e não isenta a civilização como um todo. Como Zerzan pretende demonstrar, processos de alienação e dominação já criavam estruturas de opressão muito antes do capitalismo, e não são devidamente criticados pela esquerda convencional, como por exemplo a opressão de gênero vinda do patriarcado.

Dessa forma, Bookchin é que acaba naturalizando estruturas opressivas que antecedem o capitalismo, que não se limitam às sociedades humanas “contemporâneas” (e com isso ele quer dizer civilizadas), obscurecendo a natureza das estruturas que NÃO SÃO capitalistas. Há estruturas opressivas que estão inseridas no capitalismo, no sentido de que o capitalismo as assimilou, mas que o capitalismo não criou, nem necessariamente levará para o túmulo. A crítica à tecnologia, à cultura simbólica e ao sedentarismo agrícola é muito mais complexa e séria do que parece à primeira vista. Porém, como certa defesa do progresso parece ser ponto comum entre defensores do capitalismo e do marxismo, críticos da civilização encontram muita dificuldade de estabelecer diálogo e fazer um debate real sobre essas questões.

Bookchin comete uma gafe etnocentrista ao considerar valores ocidentais como superiores aos valores de povos indígenas. É isso que está em jogo quando se afirma que somos mais avançados hoje do que em qualquer outro período. Como se a História fosse universal e tivesse ocorrido naturalmente, como uma evolução biológica, em todos os lugares do mundo, ignorando que a maioria dos povos só entrou para a “História” sendo invadidos, massacrados e assimilados. Foram as guerras de conquista e o comércio que espalharam as “maravilhosas conquistas da humanidade” pelo globo. Nota-se a arrogância de uma cultura expansionista de considerar suas próprias invenções como conquistas da humanidade, quando a maior parte da humanidade viveu e continuaria vivendo sem elas. O elogio ao avanço acaba se confundindo com um elogio à escravidão e ao próprio capitalismo, que criou “condições concretas de propiciar uma vida superior para a imensa maioria das pessoas”. A que preço? E qual não será o preço para que essas condições se tornem acessíveis de fato todas as pessoas? E como chamar isso de vida superior sem afirmar que outros povos levam vidas inferiores?

O ponto central realmente é o conceito de vida humana. Para Bookchin, como para a maioria da esquerda convencional, são os atributos humanos que determinam o avanço das técnicas. Devemos olhar para o avanço da civilização como a própria realização da historicidade humana. Logo, olharemos para aqueles povos que não se desenvolveram do mesmo modo e veremos o que? Necessariamente, teremos que afirmar que eles não seguiram sua natureza humana, que eram menos que humanos, que se excluíram da história, permanecendo na “pré-história”. A acusação que Bookchin e os defensores do progresso faz aos críticos da civilização inevitavelmente recai sobre os povos indígenas também. Estes, de acordo com Bookchin, recusam o novo, se prendem nostalgicamente ao passado, permanecem num estado próximo à animalidade, recusam um atributo humano, recusam sua própria humanidade. A luta indígena para preservar sua cultura e seu modo de vida seria assim “uma vergonha diante de séculos de pensamento, práticas e ideais revolucionários; isso difama as memoráveis tentativas da humanidade de se libertar do provincianismo, do misticismo, da superstição, visando transformar o mundo”.

Bookchin não se defende adequadamente dessas críticas. Não é possível apelar para argumentos materialistas, como: “Dadas as condições materiais corretas, esses povos também fariam o mesmo”. Isso seria incorrer num determinismo histórico, que é justamente o que deve ser colocado em questão aqui. O conceito de vida humana de Bookchin remente ao conceito hegeliano de História, no qual a vida humana está ordenada teleologicamente, e estaria destinada a um fim determinado. Nem sequer Marx foi tão ingênuo a ponto de não perceber o problema desse tipo de perspectiva. Seus leitores, porém, incluindo os anarquistas clássicos, não se detiveram muito nas sutilezas, e preferiram simplificar a posição materialista como uma simples inversão do hegelianismo.

Em outras palavras, se indígenas são humanos, e tudo que Bookchin afirma sobre os humanos é verdade, não haveria por que negar que não é preciso civilização para “fazer o mundo ao seu redor mais adequado ao seu próprio desenvolvimento”. Logo, o apelo de Bookchin à especifidade humana não parece justificar nenhuma de suas críticas ao primitivismo, mesmo sem considerar que na verdade todos os seres vivos modificam o mundo ao seu redor. Não há porque definir que a capacidade de transformar o mundo foi distorcida somente na revolução industrial, e não num processo gradual que começa com a submissão da mulher e a dominação totalitária da natureza, por exemplo. Bookchin se furta às verdadeiras questões que o primitivismo coloca, preferindo reduzi-lo a um conjunto de práticas de sobrevivência ou de estilo de vida, que visam  nada mais que marcar uma identidade, como as que o autor da resenha diz considerar exemplares. Primitivismo não é isso. O primitivismo levanta questões teóricas relevantes para o anarquismo. Estas simplesmente não estão sendo apreciadas adequadamente, ainda existe receio de tocar nessas questões. O primitivismo jamais propôs que “a revolução se resume agora a deixar de trabalhar e viver do lixo dos outros”. Criticar a civilização, como criticar o capitalismo, não se resume a um boicote ou isolamento, nem implica necessariamente nessas práticas, logo a provocação aos “primitivistas que usam computadores” é tão rasa quanto aquela aos “socialistas de iPhone”. A crítica a uma suposta perspectiva anticivilização que não passa de uma meritocracia sobrevivencialista é válida, não nos cansaremos de fazê-la, e não tira o valor da crítica real. E não precisa acreditar em mim, convido-o ao debate sobre crítica a civilização para que possamos, juntos, apoiar um ao outro para fins comuns. Não há porque gastarmos tempo nos acusando mutuamente e discutindo picuinhas quando podemos nos unir contra o inimigo comum. No tempo livre, porém, convém definirmos nossas posições sobre todas as questões que nos aproximam e que nos distanciam, que podem ser mais do que simples picuinhas. Podem fazer toda a diferença.

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