5 responses to “Debate com humanaesfera”

  1. Perfeita a tua descrição da natureza ateleológica, amoral e indiferente. Concordo com ela. E que os processos aleatórios podem (ou não, acrescento) levar à emergência de processos homeostáticos, aquilo que se costuma chamar processos sustentáveis. Ou seja, o processo homeostático em questão somos nós mesmos junto com todos os outros seres que, nas suas relações conjuntas, mediante “feedbacks negativos” (mortes, escassez e catástrofes) que mantém a sustentabilidade do sistema ao longo do tempo ao contrabalançar os “feedbacks positivos” que de outro modo se acumulam e levam ao colapso dele, continuam permitindo a existência de cada espécie, e a vida e desenvolvimento de cada indivíduo atual dessas espécies. Porém, a minha crítica era justamente a transposição dessa visão descritiva da natureza para a prática social (não é isso que o primitivismo propõe?). Quando se faz isso, o sofrimento e morte de cada um de nós (como o de todos os outros seres) são naturalmente justificados na prática social. A morte e sofrimento de cada um passa a ser considerada uma prática social aceitável (como “feedback negativo” necessário à “homeostase”) para que o suposto todo, o sistema holista, seja sustentável. Realmente isso não tem outro nome que não teodiceia (bastante similar aos ritos sacrificiais do antigo paganismo para a “restauração da ordem cósmica”). Mas, como toda teologia e religião, ela não existe na natureza, é uma criação especificamente humana. Nenhum outro ser vivo age mediante uma “percepção imaginária extraterrena” (holística) de si mesmo no mundo, indiferente ao seu próprio sofrimento e morte em nome da uma imaginação em sua cabeça. Esse é um exemplo de armadilha criada pela industriosidade humana de que falei antes.

    Como tratar então o problema da destruição do meio ambiente do qual dependemos para existir? Para não cair nessa armadilha teocrática (holística), é preciso saber separar descrição científica de prática social (que inclui a ética, mas também, entre outras coisas, é claro, a técnica, com ferramentas, máquinas etc), colocando-as como duas das muitas dimensões de nossas próprias necessidades e capacidades. Ou seja, como já dissemos, não há critérios acima e fora de nossas necessidades e capacidades para decidirmos nossas próprias ações, inclusive nossas ações com relação ao ambiente do qual nossas próprias vidas dependem (junto com os seres vivos nesse ambiente com que nos relacionamos). Simplesmente, para agirmos, só temos as nossas próprias capacidades e necessidades, com as ideias, ciência e práticas que inventamos a partir delas, e com as quais pensamos e agimos com algum êxito ou não.

    A mesma crítica à teodiceia holística da natureza que fiz no primeiro parágrafo se aplica à afirmação de que a guerra tribal não é algo destrutivo porque possibilitou a diversidade cultural (nota: essa última afirmação também é bem questionável, mas deixa pra lá). Pois, como você defende como modelo para nós hoje voltarmos às sociedades tribais, você justifica a guerra tribal como prática social hoje. Nos sacramentos da teodiceia holística da sustentabilidade, as guerras são naturalmente justificadas como circuitos de “feedbacks negativos” para compensar os “feedbacks positivos” que se acumulam e tendem a colapsar a sustentabilidade do “holon” imaginário, a “homeostase” da “natureza primeva”. Mas, cara, toda guerra se define por haver gente morrendo e sofrendo, e isso não é defensável como necessidade hoje; o mínimo que é defensável é que desenvolvamos a capacidade de evitar a guerra, assim como todo sofrimento desnecessário, e que ao mesmo tempo, pela mesma razão, desenvolvamos a capacidade de manter ou criar a sustentabilidade prática da nossa relação com o ambiente do qual dependemos.

    No mais, acho que já esclarecemos mutuamente nossas posições. Respeito as tuas, mesmo não concordando. E espero que mantenhamos contato.

    Saudações

    humanaesfera

  2. Primeiramente, agradeço pela resposta e por compartilhar tuas ideias.

    Sobre a afirmação de a escassez ser um modo de ver o mundo, artificial, sendo abundância um “estado natural”, essa afirmação contradiz praticamente tudo o que já sabemos pela ciência. A ideia de “ordem natural”, “sustentabilidade”, “equilíbrio natural”, é uma invenção humana. Ela simplesmente não existe na natureza. A natureza é incessante desequilíbrio cego e indiferente. Se tens alguma dúvida, observe a cadeia alimentar – mais de 99,99% dos seres vivos vive de ferir e/ou devorar outros seres vivos, a tal ponto que nem sequer os seres mais inofensivos da cadeia alimentar, como as plantas, são “pacíficos”, mas venenosos (ou seja, assassinos; aliás são dos venenos das plantas contra seus concorrentes que vem todas as propriedades medicinais delas que usamos graças à nossa ciência, empiria e técnica), espinhentos (verdadeiros torturadores), monstros vorazes para muitos outros pequenos seres ingênuos que metem seus bedelhos neles (fungos e bactérias, por exemplo, atacados pelo sistema imunológico vegetal) etc. Atente também para a interminável concorrência cega dos seres por nichos que extinguiu 99,99% de todas as espécies que já existiram na terra desde o surgimento da vida. Até mesmo a molécula mais básica necessária à nossa vida atual na terra, o oxigênio, um gás venenoso para os primeiros seres vivos, foi introduzida “artificialmente” na atmosfera (antes predominantemente de CO2) pelos primeiros seres a fazer fotossíntese (provavelmente cianobactérias), levando a uma extinção em massa colossal. E caso a humanidade quiser por em prática a ficção de uma “ordem natural” independente dela, ela terá de se entregar a esses processos cegos, violentos e indiferentes, “naturalizá-los” e agir do mesmo modo. Porque a “natureza” de fato é apenas um conjunto de forças cegas completamente indiferentes ao sofrimento, assassinato, tortura, abundância, escassez, sustentabilidade e à própria vida de todos os seres vivos. A única “natureza humana” que existe é criatividade, ou seja, transformação da natureza herdada, tanto a da “natureza” de si mesmo (cultura) como a das circunstâncias ambientais, em suma, indústria no sentido amplo e radical do termo (engenhosidade, inventividade), criação histórica. É verdade que nossa criatividade pode criar e cair em armadilhas (por exemplo, consequências ruins inesperadas, aliás, como o próprio surgimento histórico da sociedade capitalista e, antes, da sociedade de classes ou castas), porém, a colocação em prática da ficção de uma “mão invisível” chamada “ordem natural” seria certamente uma dessas armadilhas, a pior de todas talvez, levando certamente ao extermínio cego e indiferente de milhões, bilhões de pessoas. O risco de criarmos uma armadilha imprevista sempre existe, mas o risco passa a ser certeza quando deixamos de lado nossas capacidades (éticas, científicas, técnicas etc) para agirmos tão indiferentemente e cegamente quanto a natureza, guiados pela fé numa “mão invisível” por traz as forças naturais cegas.

    Sobre a dádiva das sociedades tribais, como Mauss mostrou, era um sistema de coerção e, muitas vezes de dominação brutal de alguns clãs sobre outros. Em sociedades tribais em que os clãs não se hierarquizavam, o “dom” consistia em laços coercitivos resultantes da desconfiança entre tribos inimigas sempre à beira da guerra entre si (segundo Pierre Clastres, era esse estado de guerra generalizada que impedia o surgimento do Estado, o surgimento das castas). O “dom” era o rito de uma guerra invertida, em que cada lado, sempre extremamente desconfiado, tinha de provar sua confiança ao outro clã através da concorrência de dar mais no futuro do que recebeu de presentes. Caso algum lado, por qualquer razão, fosse apressado em retribuir ou se passasse a retribuir com menos (e sempre chegava esse momento), isso era considerado prova definitiva de desconfiança e declarava-se guerra, porque se não fosse declarada guerra formar-se-ia uma relação em que um clã se sobrepõe a outro (castas). Sem guerra nas sociedades tribais, o dom se torna dívida “infinita” de um clã (o que dá menos) para outro (o que dá mais), a ser paga como sujeição de castas. Na antropologia, esse é o caso mais clássico de todas as “dádivas”, o potlatch, praticado por uma sociedade de castas da América do Norte. Em suma, o que quero dizer é simplesmente que a dádiva tribal não parece de nenhuma maneira servir como modelo para nós hoje. A própria possibilidade do “dom” pressupõe a propriedade coletiva tribal sobre objetos produzidos por ela privadamente diante de outra propriedade coletiva tribal de outros objetos produzidos privadamente frente àquela e vice-versa. Pressupõe portanto, a troca entre propriedades privadas, que é “dom” (laços de dívida) enquanto não é guerra e que se torna mercado (escambo) durante a guerra declarada, quando cada lado exigia uma retribuição imediata, rápida, de bens (e “com valor equivalente”, “justo”, porque não confiam absolutamente um no outro). Hoje, os meios de produção são materialmente comuns em escala mundial (nada, em termos materiais, é produzido privadamente), e, consequentemente, na perspectiva de um mundo libertário atual, o desfrute das forças produtivas não pode ser um “dom”, mas uma auto-realização autônoma propiciada pelo livre acesso por todos às forças produtivas comuns.

    Sobre a natureza que dá, sobre coerção da natureza, e a afirmação de que devemos ser naturalmente naturais, abandonar a técnica, máquinas etc, por causa da dependência tecnológica etc: já mostrei no primeiro parágrafo que “ordem natural” é uma invenção humana, uma ficção de consequências potencialmente catastróficas para os próprios seres humanos e a vida na terra. E dependência não é sinônimo de dominação. A dependência é inescapável e é a única base para, transformando aquilo de que somos dependentes, criarmos nossa independência, ampliar reciprocamente uns para os outros a liberdade e a autonomia, e permitir o livre desenvolvimento das capacidade e necessidades de todos. Se independência for tomada como absoluto (sem dependência), é sinônimo de prisão, de fechamento, e na verdade trata-se de dependência de muros que isolam do mundo, verdadeiro buraco negro morto-vivo. Sobre uma ética que trata dessas questões (liberdade e dependência, necessidades e capacidades etc): http://humanaesfera.blogspot.com.br/2015/10/autonomia-e-cotidiano-espinosa-e-o.html

    Sobre a pergunta: “Somente humanos podem deliberar sobre a vida na terra?” Enquanto a tecnologia não permitir aos outros seres vivos se expressar de modo que possamos compreendê-los, os animais vão continuar sem falar. E enquanto tudo indica que os animais não ligam minimamente para o sofrimento dos outros seres (exceto a sua prole), e que são completamente indiferentes à tortura e assassinato deles, são apenas os humanos que se preocupam com eles e com essas questões. A não ser que, mediante biotecnologia, façamos os outros seres vivos serem tão inteligentes, compreensivos e faladores quanto nós. Mas isso não parece uma boa ideia.

    Mas provavelmente a principal e mais radical divergência é com a afirmação de que a dominação é originada de um modo de pensar (como o etnocentrismo, antropocentrismo, a ideia de tecnologia etc), de uma mentalidade, de uma cultura, de uma metafisica, de um comportamento, de uma psicologia etc. Se fosse isso, a única maneira de acabar com a dominação seria policiando e atacando essa sua suposta causa: a mente, o modo de pensar, mentalidade, ideia, metafísica, cultura, psicologia etc das pessoas. Ora, isso seria totalitário, uma dominação muito pior do que a que se quer atacar. De um ponto de vista libertário, não é quem quer comandar (com sua mentalidade, ideias etc) que realmente tem o poder, mas aqueles que se sentem compelidos a obedecer (primariamente por esperança de recompensa e medo de punição). Se ninguém encontra materialmente razão nem paixão para levar a sério aqueles que querem estar numa posição de prometer recompensas e ameaçar com punições, não tem a menor importância a mentalidade, ideia, psicologia, comportamento, cultura etc desses loucos mandões. Basta deixar cada maluco com suas maluquices. E a condição material na qual ninguém encontra razão nem paixão para se submeter é a abolição do trabalho (abolição de toda atividade tão repulsiva que ninguém pode considerar valer por si só, mas só como equivalente de outra coisa, recompensa e punição, “mérito” ou “demérito”) e da propriedade privada das forças produtivas que é justamente aquilo que impõe a sujeição ao trabalho.

    Enfim, concordamos que esses assuntos são opções e consequentemente valem a pena serem debatidos e questionados. E a divergência é fundamental se lutamos por uma sociedade libertária que propicia que uns prefiram, por exemplo, viver como tribos em florestas e savanas (fictícia e artificialmente, na minha opinião) naturais e imutáveis, enquanto outros preferem viver em meio a maquinismos e inveções. Cada louco com sua mania.