Contra o eco-capitalismo

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O objetivo desse livreto é fazer uma crítica à tendência capitalista de assimilar o discurso ecológico e torná-lo parte de uma nova forma de capital, expandindo assim os mecanismos de controle da sociedade capitalista.

Índice:

  1. Civilização, insustentabilidade e capitalismo
  2. Os imperativos letais do desenvolvimento econômico
  3. Dádiva e sociabilidade
  4. Contra o capital
  5. Justiça, direito e civilização
  6. Sociedade do trabalho
  7. Ambientalismo capitalista
  8. Referências


  1. Civilização, insustentabilidade e capitalismo

O ser humano tem cerca de 250 mil anos de idade. O modo de vida civilizado existe há cerca de 10 mil anos. A civilização não se espalhou por meio de um extraordinário sucesso evolutivo. A civilização se espalhou por meio do expansionismo: invasão; conquista; assimilação e aniquilação.

O capitalismo é a última tendência da civilização. O socialismo apresenta-se como a alternativa hegemônica dessa tendência. Ambos discordam em como serão geridos os meios de produção, mas nenhum critica a civilização.

Há indícios de que os seres humanos tinham estabilidade populacional e sustentabilidade ecológica antes da civilização. A civilização, com todos os seus feitos monumentais, longe de ser a manifestação máxima da potencialidade humana, é a manifestação da sua mais profunda miséria. E isso não onde ela falha, não onde falta civilizar, mas justamente onde ela é mais proeminente. Ela é o resultado daquilo que nos faz buscar na construção de símbolos externos de poder aquilo de que somos carentes internamente.

O modelo econômico atual foi criado para responder à crise do modelo anterior, e fez isso ganhando algum tempo em troca da geração de instabilidade. A desregulamentação dos mercados se tornou um vício. Para salvar a rentabilidade, é preciso sacrificar empregos. A economia mundial é movida pelo excesso de consumo. Se o consumo diminui, algo precisa compensar essa perda, e não há mais de onde tirar dinheiro. O dinheiro público passa a ser usado para pagar dívidas privadas e evitar a queda de mercados, que poderia gerar um efeito dominó. No fundo, quem lucra com isso são os bancos [1].

O novo papel da cultural global é fazer com que nos sintamos bem em cooperar com a reestruturação econômica para diminuir o impacto da crise. E uma das soluções sugeridas é o eco-capitalismo. Trata-se de abrir um novo espaço para o lucro transformando a produção e os serviços em negócios um pouco mais ecológicos. Os consumidores irão pagar por isso se forem convencidos que é responsabilidade deles ter carros menos poluentes e usar fontes de energia mais sustentáveis. Quando a cultura diz “salve o planeta”, de fato ela está dizendo “salve a economia” [2].

Não que o dano ao meio-ambiente não seja real. Mas o eco-capitalismo não atinge a causa da crise ambiental. O discurso ecológico serve de desculpa para salvar o capitalismo. Por meio dele, é possível promover um novo ideal de “bem-estar social”. Um que não obrigue o Estado a gerenciar o bem público, mas ao contrário, que justifique um investimento na iniciativa privada e a deixe gerir o bem público por meio do mercado de consumo. Assim, não será preciso prejudicar as grandes empresas. Ao contrário, elas serão beneficiadas com dinheiro público, com a desculpa de que se trata de um incentivo para criação e adoção de estratégias e tecnologias mais ecológicas. O Estado cria leis garantindo esses benefícios, não apenas porque os políticos também são investidores nessas empresas, mas porque este é o único modo de sustentar a economia global.

É o dinheiro do consumidor que cobre os gastos para transformar a atual civilização numa civilização mais ecológica. Mais do que isso, o processo de desestabilização iniciado no neoliberalismo se perpetua graças a esse investimento. Quem tem dinheiro pode salvar o mundo comprando alternativas ecológicas. Quem não tem nada a oferecer para o “planeta” será prejudicado, porque provavelmente só poderá recorrer aos meios mais “primitivos” como fonte de renda.

Leis, acordos e políticas para poupar o planeta dos danos ambientais causados por produtos de uso cotidiano jamais serão suficientes. Ao contrário, servem apenas para impedir que as mudanças realmente significativas ocorram. Mesmo a ala mais radical do ambientalismo é reformista em relação à civilização.

Se a civilização em si é um problema, nenhum ambientalismo será suficiente. A devastação ambiental é apenas um dos efeitos da civilização. Governos e corporações não são os piores inimigos. O capitalismo verde é uma continuação do capitalismo baseado em petróleo e guerras, e qualquer outro tipo de capitalismo não irá sobreviver. Mais do que isso, passar para o próximo estágio civilizatório não soluciona o problema inerente ao processo cultural que o gerou. Estamos lidando com crises dentro de crises dentro de crises desde o começo da civilização. A crise central, mais importante e mais fundamental, é também a mais primitiva…

  1. Os imperativos letais do desenvolvimento econômico

Um bom exemplo de como nosso sistema econômico pode ser prejudicial está na maneira com que tratamos a agricultura e a medicina.

Para suprir a expansão econômica, produtos baratos, porém pouco nutritivos, são vendidos através de campanhas publicitárias grandiosas, colocando cada vez menos alimentos saudáveis à disposição do consumidor. As regras da economia beneficiam aqueles que vendem mais, por isso é mais lucrativo investir em propaganda que na qualidade do produto.

A lavoura se tornou hoje uma grande indústria, escrava dessas regras insalubres. Para produzir mais, os agricultores são obrigados a meramente reproduzir técnicas criadas por agrônomos, perdendo sua liberdade de produção. Os agricultores são agora obrigados a desconsiderar as relações ecológicas entre as plantas, os animais, o solo, a água e o ar. Eles são levados pelas conveniências de mercado a produzir mercadorias para suprir uma demanda criada pela publicidade.

Nessa indústria, os animais são torturados, amontoados, recebem alimentação inadequada e mantêm-se vivos à base de antibióticos, passando uma vida de intenso sofrimento. Com as plantas não é muito diferente. Elas são modificadas quimicamente para resistirem a pragas, quando na verdade estão se tornando cada vez menos nutritivas. Tudo isso causa um impacto ambiental para o solo, que se torna infértil; e para os rios, que se poluem devido ao acúmulo de resíduos tóxicos.

Para piorar, grande parte do custo de nossa alimentação vem do gasto com o combustível para o transporte. A agroindústria depende da indústria petroquímica, ou seja, se tornou dependente de um recurso não renovável que causa problemas ambientais e sociais massivos.

Com tudo isso, podemos dizer sem receio que a nossa agricultura é hoje o empreendimento mais insustentável do mundo, portanto a maior ameaça à vida neste planeta. Poderia ainda supor-se que pelo menos o lucro dos trabalhadores da terra aumentou. Na realidade o que aconteceu foi o oposto: está cada vez mais difícil viver de cultivar alimentos. O trabalho mais essencial à nossa existência se tornou o mais inseguro de todos.

O problema na agricultura relaciona-se ao problema na medicina. A maior parte do custo com o tratamento de doenças poderia ser evitado com uma alimentação mais saudável. As companhias farmacêuticas controlam desde a formação dos médicos até como estes irão empregar seus conhecimentos, de acordo com o interesse de algumas empresas que fabricam remédios e equipamentos hospitalares. Esta maneira de tratar a agricultura e a medicina, duas áreas consideradas de importância primordial ao bem-estar das pessoas, reaparece de forma semelhante em praticamente todas as formas de trabalho e de produção em nossa sociedade. Essas coisas não parecem ter correção isoladamente. Toda vez que aumentamos as verbas ou criamos leis na esperança de corrigi-las, apenas mudamos o foco do problema e na realidade o agravamos.

Por exemplo, a justificativa usada para levar adiante o processo de industrialização das fazendas foi reduzir a escassez de comida. A promessa era de que a comida produzida em grande escala eliminaria a fome. O que aconteceu foi precisamente o contrário, e diversas empresas enriquecem-se com isso, no entanto continuamos acreditando que a fome pode ser resolvida com o avanço tecnológico e o aumento da produção. Mas nosso sistema econômico não garante distribuição igualitária, nem garante que a prioridade seja a subsistência, e sim a exportação e a expansão de mercado. A fome não é um problema de distribuição de alimentos, ela foi gerada pela perda de autonomia do trabalhador rural sobre os recursos agrícolas. Para resgatar essa autonomia, seria preciso por um fim à agroindústria, o que obviamente não é coisa simples de se fazer.

  1. Dádiva e sociabilidade

Graças à cultura mercantil, acostumamo-nos a ver todas as nossas relações como trocas equivalentes, do tipo que não gera dívida. Mas a dívida é o chão no qual se fundamentam os laços sociais. Quanto mais forte o laço com alguém, mais forte o sentimento de que devemos algo a essa pessoa que dificilmente poderemos pagar. Este sentimento de dívida ou gratidão é fundamental para a dádiva. Na dádiva nós damos sem esperar retorno, mas o resultado não intencional é a dívida que fortalece o laço afetivo. O sentido da dádiva é eliminado quando se busca quitar a dívida, quando se busca sempre pagar exatamente pelo que se recebe. A troca equivalente está relacionada à individualização e à fragilização dos laços sociais.

Tudo começou no modo como nos relacionamos com a natureza. Em algum ponto da história humana, houve uma transição fundamental nessa relação. Ao invés de pensar no que obtemos da natureza em termos de dádiva, passamos a pensar em termos de extração de recursos. A extração ou produção é considerada como uma troca equivalente, que não produz dívida: troca-se o trabalho humano (força + tempo) e obtêm-se recursos ou produtos. Para o pensamento econômico do século XIX, é como se o trabalho humano produzisse um laço entre o trabalhador e o produto do seu trabalho. Tal laço, quando oculto pelas relações de mercado, produz uma alienação do trabalho. Nada se fala, porém, da alienação da natureza em relação à matéria que originou o produto do trabalho. Tanto o utilitarismo quanto o materialismo econômico eliminam o conceito de dádiva da nossa relação com a natureza.

A dádiva é gratuita, não exige retorno equivalente, e fortalece os laços entre os envolvidos, como o carinho que pais oferecem aos seus filhos. Uma troca equivalente permite a barganha, uma vez que a equivalência depende de critérios variáveis. Numa barganha é possível obter vantagem ou desvantagem. Isto possibilita o lucro. Uma pessoa não barganha consigo mesma para atingir um objetivo. Uma parte do corpo não negocia com a outra antes de fazer algo por ela. O processo de eliminação da dádiva está relacionado à separação entre o ser humano e seu meio.

Na relação mediada pela dádiva não cabe o conceito de produção, produto ou mercadoria. A comida, por exemplo, não é simplesmente produzida pelo trabalho. Por isso não faz sentido falar em aumento da produção ou da efetividade da produção. Para realizar o cálculo que permite obter mais coisas com menos trabalho, é preciso criar outra relação com a natureza. Tudo depende de qual visão de mundo está mais próxima da verdade: Ou o ser humano sempre desejou o acúmulo, mas nunca conseguiu se elevar para o topo da pirâmide de necessidades até um período relativamente recente da história humana, ou ele vivia num ciclo de abundância, e o desejo pelo acúmulo nunca durou tempo suficiente para impulsionar uma indústria focada no aumento da produção. Tudo que sabemos é que o excesso é resultado de uma economia de escassez.

A resposta à dádiva é outra dádiva, mas mesmo quando ocorre uma aparente troca de presentes, a lógica não é a da troca. A resposta à dádiva ocorre pelo prazer de dar, e não pela exigência de receber algo em troca. Ao invés de uma troca, o que ocorre é um ciclo infindável de presentes, cada um deles apenas aumenta a dívida de um para com o outro. Só se paga a dívida quando se quer cortar a relação. É por isso que amigos respondem a um presente com certo constrangimento: “Você não devia”, o que significa ausência de dever no sentido de obrigação, mas não ausência de dívida. Só não se quer dever mais nada a quem não se quer mais ver. Alguns buscam saldar suas dívidas com os mortos para permitir que seu espírito livre-se das correntes que o prendem, o que demonstra a força do laço social gerado pela dádiva.

Nossa sociedade isolou seus membros dos demais seres, tirando-os do ciclo aberto ao qual todos os outros seres estão sujeitos, e inserindo-os em ciclos aparentemente fechados de circulação de matéria e energia. Porém, esses ciclos não são fechados, apenas a relação com o resto do ciclo da vida foi ocultada. Sem esta espécie de alienação não seria possível construir sistemas de extração e de uso de recursos de modo tão predatório. Um ser não pode ser separado de seu meio sem adoecer. O que está em jogo é a domesticação, a separação em relação ao que dá forma e estrutura ao ser.

O paradigma da dádiva inverte a questão ética do utilitarismo. A ética do utilitarismo pergunta pela ação que maximiza os ganhos e minimiza as perdas. A premissa é a existência de um desejo natural e individual de obter a otimização. A ética da dádiva não está preocupada com a otimização, mas com o prazer de dar. Assim, ela não pergunta pelo que se ganha, mas pergunta pelo que pode ser dado livremente. A ética mercantil ou utilitarista expande a possibilidade de controle e planejamento da ação para novos horizontes. Esta expansão possibilita o aumento exponencial da complexidade social, o que nos insere de modo aparentemente inexorável numa torrente de mudanças sociais e culturais.

O prazer é motor da dádiva, e não o dever. Trata-se do prazer de dar enquanto base de toda relação humana. O paradigma que parte do interesse no acúmulo precisa explicar o fenômeno da dádiva como uma exceção, um desvio da norma, algo extraordinário ou mesmo doloroso. O paradigma da dádiva, ao contrário, parte do interesse em partilhar, e o fenômeno a ser explicado é o do acúmulo. Enfim, ao invés de perguntar “por que alguém dá sem esperar algo em retorno?”, nos perguntamos “por que alguém deixa de dar sem esperar algo em retorno?”. Ou seja, o que faz uma pessoa cessar o processo contínuo da dádiva, o que a faz isolar-se do ciclo de dádivas que foi seguido por todos os seus ancestrais?

Quando consideramos também a necessidade de dar e não somente a necessidade de receber, a negociação e as estruturas de valores que visam controlar a relação entre gastos e ganhos perde seu sentido. Em tais condições, o conceito de propriedade é relativizado. Ainda que algo seja confiado a alguém, não se torna propriedade de alguém. Este tipo de relação centraliza-se no laço entre dois seres. Os objetos possuem valor referente a esse laço. Nada pode ser realmente adquirido, comprado ou vendido. O que não é próprio de um ser não pode ser propriedade.

Por exemplo, quando o alimento é digerido ele se torna parte daquilo que constitui um ser. Ao instituir que objetos externos podem ser considerados como propriedades de uma pessoa, nós nos tornamos como devoradores do mundo. Coisas que não pertencem ao nosso corpo passam a fazer parte de nós. Assim, em paralelo com o crescimento do corpo, nós crescemos na medida em que conquistamos coisas. Este novo tipo de crescimento nos converte em seres assimiladores, assim como dá à sociedade um poder semelhante ao poder do organismo biológico. As coisas que acumulamos nos tornam maiores. Na medida em que nossa dependência desses objetos cresce, nos tornamos dependentes do próprio processo de acúmulo.

Se os objetos que acumulamos fazem parte de nós, somos compostos de partes orgânicas e inorgânicas. Quando a extensão do controle determina nossa sobrevivência, os valores não podem permanecer os mesmos. A estrutura do mercado não é um resultado inevitável do desenvolvimento humano. Se hoje vivemos numa sociedade de escassez, isso se deve em primeiro lugar à substituição da dádiva pela troca como modelo de relação entre os seres.

  1. Contra o capital

O conceito de capital pressupõe a transformação da natureza em objeto de produção humana e consumo humano, e isso estabelece uma desigualdade fundamental entre homem e natureza. O ser humano civilizado acredita poder produzir o bem de todos por meio do trabalho. O capital é o resultado da crença de que somos totalmente merecedores de um direito inalienável à vida, à liberdade e à propriedade. Como se a natureza não estivesse fazendo mais do que sua obrigação em nos dar meios para viver saudavelmente e ter experiências de prazer.

O homem civilizado é aquele que jurou nunca mais sentir fome na vida, mesmo que seja preciso matar, roubar, mentir ou trair. Exigimos tudo do mundo sem nos sentirmos constrangidos a dar qualquer coisa. Queremos ser aceitos por um mundo que não aceitamos tal como é. Queremos transformar o mundo em algo mais humano. Chamamos o mundo selvagem de injusto e violento.

Por princípio, excluímos os não-humanos de todas as deliberações acerca do que fazemos ou deixamos de fazer com o planeta inteiro, pois, de acordo com nossos conceitos, só humanos podem deliberar. Se a natureza quer ser respeitada, ela deveria falar nossa linguagem. Não precisamos mais falar na linguagem dela, pois ela é lenta demais, e não temos tempo a perder. Acreditamos que é suficiente que os seres humanos entrem em acordo entre si sobre o que acham que seria melhor para todos. Confiamos que fortalecer os laços humanos é a única forma viável de tornar a sociedade mais justa. Acreditamos ser o cérebro da natureza, sua mente, seu centro de decisões.

O capital não precisa ser superado. Precisa ser abandonado, junto com seus meios de produção. A categoria “trabalho” substituiu a categoria “dádiva”. Não se trata de sentimentalismo. Não se trata de idealizar a dureza da vida que se leva em modos de vida “primitivos”. Que importa se a vida era fácil ou difícil? O que me importa é se ela é sustentável.

Só sabemos do que não precisamos quando tentamos ficar sem aquilo por um tempo. Não há nada realmente necessário que não possa ser construído novamente.

Muitas pessoas concordam com essas críticas à sociedade capitalista, gostariam de viver numa sociedade mais simples e justa, mas precisam do dinheiro, pois sem dinheiro não há como viver. As pessoas que se revoltam contra o sistema não chegarão a lugar algum.

A pergunta não é se você quer viver ou não. É óbvio que se é preciso dinheiro para viver nessa sociedade, então não podemos ser contra o dinheiro. A questão é se você é contra o capital. Pois se você é contra, o que você faz sobre isso?

Quando alguém te agride, te rouba ou te prejudica de alguma forma, você reage. Você não luta simplesmente porque reconhece que uma injustiça foi cometida, você luta porque estes direitos são reconhecidos pelo poder vigente. Mas se não há nenhuma organização ou instituição apoiando sua luta, ela parece inútil.

Você conclui que não podemos nos livrar desse sistema, por pior que ele seja, porque ninguém vai te apoiar se você começar a fazer isso. Eles podem humilha-lo, agredi-lo e prendê-lo. Ninguém vai ficar do seu lado. Logo, você não considera isso como uma luta legítima. Você pensa que quem faz isso não tem nada a ganhar, só a perder, então não tem validade. Só tem validade se os poderosos derem validade.

Se nós lutamos contra a cultura dominante para realizar uma mudança radical, somos espancados e ridicularizados. Se você faz algo que não visa um benefício considerado legítimo, você é um sonhador, um louco…

Dizem que depois dos 30 precisamos parar de pensar com o coração e começar a pensar com a cabeça. A verdade é que passamos a pensar com o estômago, porque o controle depende do medo da fome e do desejo de consumo. Por mais que você prospere nesse sistema, no momento em que você se opor a ele, você perderá todos os seus privilégios.

Esta sociedade está fundamentada na maximização do acúmulo. É muito mais fácil ganhar dinheiro com exploração do que com qualquer outra coisa. Pois o dinheiro investido em exploração gera mais dinheiro, mas o dinheiro usado para fazer o bem não retorna. Não importa o quanto se invista em alternativas, explorar algum aspecto da natureza sempre será mais vantajoso, e quanto mais dinheiro se investe na exploração, mais dinheiro se ganha, enquanto o dinheiro usado para preservar não gera mais dinheiro. O sistema monetário está fundamentalmente a favor da exploração.

Mas quem precisa de dinheiro para fazer as mudanças necessárias? Dinheiro não compra mudança de visão. Poderíamos viver na mais perfeita das sociedades, e ainda seria possível criar uma forma de acumular e expandir, se isso continuar sendo visto como um valor.

“Se sua experiência é que a água vem de uma torneira e a comida vem do supermercado, você vai lutar até a morte por essas coisas”. Nossa experiência diz que cooperar com este sistema, por mais injusto que ele seja, nos mantêm vivos. Então lutamos para permanecer nele. Nossa experiência diz que lutar por outro modo de vida pode nos matar, então consideramos isso algo insano. O ponto central do medo de lutar por outro modo de vida é que você perderá sua vida. Todos nós queremos preservar a vida. Se todos soubessem que este modo de vida é a verdadeira ameaça à vida, não continuariam a seguir em frente com os planos de expansão.

Não creio que nossa sociedade possa ser mudada sem um grande esforço. Para chegar até aqui nós tivemos que causar um enorme dano à natureza e às culturas nativas, e não podemos reverter esse dano sem abrir mão dos benefícios.

Esta sociedade é fundada no valor positivo da produtividade. Temos dificuldade em conceber como produzir pode significar algo negativo. Mesmo sabendo que nada é tão destrutivo quanto nosso sistema produtivo, nós ainda nos sentimos inúteis quando não colaboramos com ele. Só nos sentimos bem quando estamos bem encaixados, quando temos bons empregos e bons salários. Produção, criação e acúmulo são termos correlatos. Ambos correspondem a algo sendo somado, ao saldo positivo. Ser produtivo e criativo, nesse sistema, equivale a cooperar com o acúmulo que está nos destruindo. Em última instância, ser produtivo e criativo, nesse sistema, equivale a ser autodestrutivo.

Quando pensamos em perder ou ganhar, pensamos primeiramente em algo benéfico. Por isso ninguém quer perder e todos querem ganhar. Mas isso revela algo: se pensamos primeiro no que é benéfico, é exatamente porque isso nos falta. Se estivéssemos satisfeitos com o que temos, ganhar mais coisas não seria algo tão desejado, e perder não seria tão ruim. Nossa positividade é um disfarce para nossa carência. Não percebemos que, na atual situação, o que mais deveríamos valorizar é o negativo, a perda, a diminuição, porque crescemos demais e agora não conseguimos gerenciar nossos empreendimentos monumentais. Nós nos focamos nas coisas que podem ser adicionadas, e não nas que poderiam ser subtraídas. Pensamos em milhares de coisas que poderíamos ter e ainda não temos.

Se as pessoas se opusessem à injustiça inerente a este sistema de acúmulo com tanta determinação, garra, paixão e fúria quanto elas se opõem ao caixa de supermercado que cobrou o preço errado, ou ao motorista de ônibus que não parou no ponto certo, ou ao faxineiro que estragou a pintura do seu apartamento, certamente as coisas seriam diferentes…

Quem nos deu o direito de construir nossa cidade nesse lugar e de fazer o que fazemos com a vida natural que existia aqui? Quem nos dá o direito de colher os frutos da escravidão e do desmatamento? O que significa lutar contra o capital num mundo onde o capital é equivalente a deus?

  1. Justiça, direito e civilização

Assim como os gregos consideravam que qualquer pessoa vivendo fora da polis não poderia ser muito mais que um selvagem, nós preferimos confiar em pessoas que seguem nossos costumes.

Com o controle e a expansão de territórios, as pessoas foram obrigadas a viverem em grupos muito maiores do que jamais foi possível. Enquanto foram sendo assimiladas, as diferentes culturas humanas foram se adaptando a um modo de vida de multidão. Essa multidão precisava de um critério comum para decidir o que fazer quando algum conflito ocorria, porque seus costumes eram incompatíveis.

A urgência de colocar as coisas em ordem levou os colonizadores a criarem sistemas de leis universais. Com o monopólio do uso da violência, as autoridades esperavam reduzir o número de conflitos. Onde não pode haver justiça, resta causar um dano equivalente e assim satisfazer o desejo de vingança das vítimas.

Isto se tornou possível porque no modo de produção massificado as pessoas perdem sua importância enquanto indivíduos. Num grupo pequeno, cada pessoa faz diferença para sobrevivência de todos. Um grupo que insistisse em duplicar os prejuízos ao invés minimizá-los não sobreviveria muito tempo num modo de vida de subsistência. Mas numa multidão é mais fácil matar, prender ou multar os problemáticos do que lidar com a causa do problema.

Os seres humanos viveram sem leis positivas durante a maior parte da história, e ainda assim a instabilidade e a efemeridade das organizações sociais primitivas são as premissas básicas para teorias do direito até hoje. Sem uma mudança profunda no próprio conceito de direito, nenhuma mudança legal resolverá qualquer problema humano.

  1. Sociedade do trabalho

Ao tentar definir o ser humano, os filósofos recorreram a uma série de aspectos, desde a racionalidade até sua composição genética. Mas a pergunta pelo papel do ser humano na terra envolve a questão da etologia humana, ou seja, o comportamento humano, incluindo aí a cultura.

Num mundo que provoca tanto o trauma quanto o vício pelo trabalho, os eventos que ocorrem no local de trabalho ou os pensamentos decorrentes da atividade do trabalho têm sido os temas mais comuns nas conversas informais, mesmo nas conversas entre familiares, casais, amigos ou mesmo estranhos. O trabalho, e tudo que ele suscita, tem invadido gradualmente todo nosso tempo, nossa vida, nossa mente e todas as nossas disposições de ação. O comportamento no trabalho tem se tornado mais condicionante para o indivíduo do que sua convivência em qualquer outro espaço social. De fato, a tendência alienante do trabalho repetitivo, comum na era industrial, foi substituída por uma etologia que leva a vida para o trabalho e o trabalho para vida, em todos os seus aspectos.

Assim, a etologia humana está cada vez mais centrada na sociedade do trabalho, confundindo-se com a etologia do trabalho. Não apenas do trabalho humano, mas do trabalho socialmente útil, isto é, com vias para o progresso de uma sociedade civilizada. O ethos exigido no local de trabalho, assimilado como lição de vida pelos discursos motivacionais, tem se tornado um estilo de vida, algo que se torna a base para o comportamento em todos os outros aspectos da vida. A carreira enquanto estilo de vida se torna um fetiche. O olhar cotidiano se torna um “olhar médico”, um “olhar jurídico”, um “olhar filosófico”, e assim por diante. Tudo gira em torno da profissão. O indivíduo tem centralizado mais a vida no trabalho do que em qualquer outra de suas capacidades. Em outras palavras, a função artificial, criada para suprir uma sociedade de acúmulo, está substituindo todas as funções e responsabilidades que tínhamos no passado. Nestes termos, a sociedade do trabalho criou uma nova função para o homem, destituindo-o dos direitos e deveres que ele tinha e substituindo sua ética por uma ética baseada na produção e no consumo.

A etologia dos humanos não civilizados se assemelha à etologia dos animais não domesticados, ou selvagens. Este modo de vida foi abandonado e considerado como aprisionador, pobre e primitivo. A questão que se coloca é então uma oposição entre trabalho, que é a função social na estrutura mercadológica, e a função humana para o meio no qual surgimos. Quando todos os comportamentos objetivam apenas a manutenção do trabalho; quando mesmo a arte existe em função do trabalho e segue a mesma estrutura do trabalho; quando todas as atividades humanas são assimiladas e classificadas de acordo com o grau de eficiência com que colaboram com a sociedade do trabalho; então estamos vivendo numa sociedade do trabalho.

Como mortos-vivos, somos seres que perderam sua função, passando a apenas se alimentar e assimilar os demais. Como células cancerígenas, nós não mais vivemos para o corpo, mas apenas para nosso próprio crescimento. Nosso princípio de ação é determinado por forças estranhas à vida.

A perda das funções humanas leva a uma busca constante por algo de que se tem carência e a uma reprodução de uma rotina sem sentido e sem finalidade, gerando medo, raiva e desespero. A morte-vida, diferente da morte, se espalha dominando as mentes e os corpos, num movimento de expansão por via do engano e da violência. A morte fecha o ciclo da vida, mas a morte-vida impede o fechamento do ciclo da vida, criando um círculo vicioso. Ela nos desliga de nosso propósito como seres humanos e nos leva para uma espiral descendente de acúmulo e expansão de poder.

Não é por coincidência que alguns autores relacionaram os mortos-vivos à maldição de Caim, o primeiro agricultor, primeiro assassino e também fundador da primeira cidade. Caim foi condenado a vagar pela terra sem rumo definido e recebeu uma marca que o impede de ser morto, porém todo seu trabalho resulta em cinzas. Ele é por definição o homem destituído de seu papel humano, condenado a caminhar para o vazio, numa existência sem sentido.

Caim, que arou seu campo com o sangue de seu irmão, é o primeiro a acumular. Em hebraico, Caim significa “homem de posses”. Ele, que foi herdeiro da condenação ao trabalho pelo pecado da cobiça, agora também se torna fundador de uma nova maldição: a carência que leva à destruição da vida em função do trabalho.

Nós elegemos o trabalho como fonte não apenas de sustento, mas de sentido existencial. Todos os aspectos do trabalho moderno, incluindo a programação de comportamentos pelo cálculo de produtividade, se tornam aspectos da vida moderna. Mas a vida transformada em produto também se torna parte de um processo sem sentido quando o consumo acaba. Ou seja, este processo é a transformação de tudo que é vida em morte-vida.

  1. Ambientalismo capitalista

Um dia os maiores criminosos do mundo se reuniram numa conferência global para discutir um assunto muito importante: As atividades criminosas estão destruindo o mundo. A preocupação principal era que os criminosos estavam agindo de forma muito bruta, muito violenta, muito predatória. Sua fonte de renda estava simplesmente sendo destruída, literalmente entrando em extinção. Algo precisava ser feito urgentemente, ou então os criminosos não teriam mais a quem roubar; matar; estuprar; chantagear; extorquir e explorar. Isto quer dizer que não poderiam mais manter seu estilo de vida, teriam que viver como vivam antes, impossibilitados de obter os benefícios que só o crime pode trazer. E seria horrível demais ter que parar agora que chegamos tão longe.

Então eles pensaram numa ótima solução: Vamos preservar! Não matemos alguém que não precisa ser morto. Não tiremos absolutamente tudo que a pessoa tem. Sejamos racionais e eficientes, poupemos nossos recursos. Chamaram essa ideia de sustentabilidade, e por todo o mundo se falava em crime consciente, por exemplo. Analistas calculavam qual seria a porcentagem ótima para se roubar de alguém, de modo que a pessoa se recuperasse mais rápido, e assim pudesse ser roubada novamente em menos tempo. Este tipo de discussão animou os criminosos, que se empolgaram e escreveram muitos artigos sobre as excitantes novas perspectivas, novos paradigmas e novos rumos para o crime. Diziam coisas como: “Um crime mais sustentável é possível” e “Devemos ter respeito por quem exploramos”.

Muitos acreditam que existe uma crise de consciência atingindo os poluidores e destruidores do mundo, e que agora percebemos o mal que estamos fazendo e estamos nos encaminhando para uma mudança, para deixarmos um mundo melhor para as gerações futuras.

A ideia de que a preocupação ecológica é recente encobre o fato de que todas as medidas que visavam restabelecer o equilíbrio entre o homem e a natureza falharam miseravelmente, e que estamos repetindo os mesmos erros há séculos. A longa história da relação entre o homem e a natureza está cheia de fracassos colossais em termos de alcançar uma convivência harmoniosa. Desde a antiguidade havia pensadores preocupados com o desmatamento e com as barragens. Nada disto é novo, e é patente que as coisas pioraram, apesar de toda a preocupação. Tendemos a achar que somos mais conscientes hoje porque temos mais acesso à informação.

Nós hoje culpamos o petróleo e as corporações, mas houve um momento no passado em que o petróleo era a promessa de energia mais limpa e eficaz. O petróleo já foi o que hoje é o biodiesel: uma alternativa ecológica, bem menos poluente que seu antecessor, o carvão. Quando ficará claro que encontrar fontes de energia alternativa não é suficiente? O mais importante é que nós fazemos com essa energia. Dizer que vamos conseguir mover nossos carros sem poluir o ar com monóxido de carbono seria como, há 200 anos, dizer que conseguiríamos mover nossas carroças sem poluir as ruas com as fezes. Sim, é verdade, e daí? Nossa ingenuidade consiste em insistir na mesma mentalidade que substituiu as carroças por carros.

Para a sociedade do consumo, a derrocada do ambientalismo se dá porque este não prioriza o progresso. A questão do fracasso do ambientalismo está sendo vista como uma questão de mudar o foco da ecologia para a economia. A crise ambiental é vista como mais um desafio que o capitalismo pode e deve vencer, com a ajuda da tecnologia e da cultura.

A preocupação agora é como tornar a preservação do meio ambiente algo “erótico” e “lucrativo”. Qualquer proposta que não leve isso em consideração poderá ser considerada irrealista. Se isto é verdade, o ambientalismo está condenado. Mesmo assim devemos seguir contra a cultura de morte produzida pelo processo civilizatório.

Referências:

T. Godbout. Introdução à dádiva. 1998.

Fritjof Capra. Ponto de mutação. 1983.

Marshall Sahlins. Stone Age Economics. 1972.

Pierre Clastres. A Sociedade Contra o Estado. 1974.

Richard Heinberg. Was civilization a mistake? 1995.

Derrick Jensen. Actions speak louder than words. 1998.

Hakim Bey. Millennium. 1996.

Bob Black. A abolição do trabalho. 1998.

Notas:

[1] Michel Husson. A nova fase da crise capitalista: Para uma regulação caótica. Disponível em: http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=10536.

[2] Tadzio Mueller e Alexis Passadakis. 30 teses contra o capitalismo verde. Disponível em: http://www.apocalipsemotorizado.net/2008/12/17/eco-consumismo.

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