Vício tecnológico

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Este ensaio, escrito pela psicóloga Chellis Glendinning, apareceu originalmente na antologia Ecopsicologia: regenerando a Terra, curando a mente (Ecopsychology: Restoring the Earth, Healing the Mind, 1995), e foi traduzido por Roberto Seimetz em 2015. Glendinning expõe as características do vício em tecnologia, não somente no nível individual, mas também da civilização como um todo.


Tecnologia, trauma e o selvagem

“Que milhões de pessoas compartilhem das mesmas formas de patologia mental, não torna essas pessoas sãs.” – Erich Fromm

Eu me encontrei com um jovem ativista político para uma conversa na semana passada em meu café favorito. Um homem pró-feminista e fundador de uma organização juvenil antiguerra durante a Guerra do Golfo, esse rapaz de 21 anos de idade vive para explorar questões sociais e agir de acordo com suas convicções. A questão que mais o preocupava no momento diz respeito à tecnologia. “A televisão tornou as pessoas menos inteligentes?”, ele se perguntava, e baseava sua conclusão no preceito desconstrucionista de que só se pode falar a partir da experiência pessoal. Sua resposta foi “Definitivamente, não.”. De fato, a capacidade mental desse jovem era mais substancial e sua perspicácia mais aguda do que eu já havia visto em qualquer outra pessoa de qualquer idade. Mas eu não pude deixar de notar que antes mesmo que um café com leite expresso quádruplo explodisse em suas células cerebrais, meu jovem amigo estava em um discurso verborrágico de 120 palavras por minuto, vibrando em seu assento como um foguete pronto para o lançamento, vociferando palavras como VPL e Macromind, e respondendo suas próprias questões em saltos quânticos através de paradigmas não integrados por qualquer visão de mundo, realidade física ou obrigação moral para com a vida que sejam coerentes.

Tal como meu amigo, a maioria de nós que habitamos a sociedade tecnológica de massa acha difícil compreender o impacto da tecnologia sobre a realidade social, quando deixada à solta, agindo sobre nossas psiques. Assim como as minúsculas bactérias aeróbias que residem dentro de hardware de computador, estamos tão enraizados em nosso mundo tecnológico que dificilmente nos damos conta de que ele existe. No entanto, a contaminação radioativa generalizada, a epidemia de câncer, os derramamentos de petróleo, os vazamentos tóxicos, as doenças ambientais, a depleção da camada de ozônio, os aquíferos contaminados e as extinções culturais e biológicas indicam que o construto tecnológico que recobre toda nossa experiência, percepção e ação política precisa ser seriamente criticado. Ademais, essa crítica requer integração por uma visão de mundo, uma realidade física e uma obrigação moral para com a vida que sejam coerentes.

Neste momento da história, é essencial que indaguemos questões difíceis e profundas a respeito do lugar que a tecnologia ocupa em nossas vidas. Qual é a essência da tecnologia moderna? Como ela estrutura nossas vidas, nossas percepções, nossa política? Como ela molda nossas psiques? O que ela diz a respeito de nossa relação com nossa humanidade e com a Terra? Infelizmente, os obstáculos às respostas estão entrincheirados, como pilares de concreto em um entrecruzamento de autoestrada, tanto em nossa realidade social quanto psicológica.

Eu descobri a extensão desses obstáculos enquanto estava em uma turnê promocional para o meu livro When Technology Wounds (Quando a Tecnologia Fere). O livro é baseado em um estudo psicológico daqueles que sobreviveram à tecnologia: pessoas que se tornaram medicamente adoecidas como resultado de exposição a algum tipo de tecnologia nociva à saúde. Eu entrevistei moradores de Love Canal, veteranos do setor nuclear, trabalhadores do ramo do amianto, filhas do DES (Dietilestilbestrol), trabalhadores da indústria de eletrônicos, usuárias do dispositivo intrauterino Dalkon Shield, proprietários de casas cujas águas subterrâneas foram contaminadas, e habitantes do perímetro da Área de Testes de Nevada, assim como pessoas que sofrem de câncer, doenças ambientais, fadiga crônica, disfunções imunológicas e muitos outros problemas.

Ao que tudo indica, essa população está crescendo. 41.000 habitantes de Louisiana estão expostos a 3,5 milhões de toneladas de lixo tóxico ao longo do corredor industrial entre Baton Rouge e Nova Orleans. 30 milhões de famílias estadunidenses, ou 96 milhões de pessoas, vivem em um raio de 80 quilômetros de alguma usina nuclear. 135 milhões de habitantes de 122 cidades e municípios respiram um ar densamente poluído, ao passo que 250 milhões de estadunidenses – todos nós – estão expostos a 1,18 milhões de toneladas de pesticidas a cada ano, além de todas as partículas radioativas que pairam pelo globo terrestre vindas de Hiroshima, de Chernobyl e das áreas de testes nucleares em Nevada e no Cazaquistão[1].

Na turnê do livro, eu sugeri que, visto que em toda parte as pessoas estão ficando doentes em decorrência da exposição à tecnologia, seria melhor se estabelecêssemos um diálogo bem informado e bem fundamentado a respeito da tecnologia. Esse diálogo não estava acontecendo. Em um debate na Rádio Pública Nacional com o Professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts Marvin Minsky, o inventor da inteligência artificial, me perguntaram se eu tinha alguma objeção aos computadores. Eu expressei a preocupação de que as substâncias químicas letais utilizadas para fabricar os computadores contaminam a biosfera. Eu mencionei Yolanda Lozano, uma trabalhadora de 36 anos de idade de uma fábrica da General Telephone and Electric em Albuquerque que morreu de câncer depois de ser exposta a produtos químicos no trabalho. O Professor Minsky retrucou: “Isso não importa.”. Em um outro momento de minha turnê, a conversa terminou quase antes de haver começado: “Tirem essa mulher do ar! Ela é o convidado mais idiota que vocês já tiveram!”, guinchou um ouvinte do talk-show. “Eu não posso abrir mão da minha mamografia!”, berrou uma outra. “Assim que nos encarregarmos dessa questão ambiental”, insistiu um homem em uma feira do livro, “deveríamos colonizar Marte. É imperativo para nossa fé no futuro”.

Vício tecnológico

Enquanto psicóloga, eu comparo a consciência pública atual dos impactos da tecnologia à compreensão que as pessoas tinham do alcoolismo na década de 1950. Naquela época, todo mundo bebia. Beber era mais do que socialmente aceitável; era exigido. O Alcoólicos Anônimos já existia há 20 anos e estava crescendo, mas seus membros ainda consideravam um constrangimento pertencer a essa comunidade. Nos últimos 40 anos, ocorreu uma revolução muito importante em nossa consciência do potencial destrutivo do alcoolismo. Eu vejo uma necessidade similar na próxima década de se repensar uma outra dependência perigosa: nosso vício em tecnologia.

Não é uma ideia nova que nós que vivemos na sociedade tecnológica de massa sofremos de vício psicológico em relação a máquinas específicas como carros, telefones e computadores, e até mesmo da tecnologia em si mesma. Mas o quadro é maior e mais complexo. Tal como o filósofo social Morris Berman declara em The ReEnchantment of the World (O Reencantamento do Mundo):

O vício, de uma forma ou de outra, caracteriza todos os aspectos da sociedade industrial. (…) A dependência de álcool, de alimentos, de drogas, de tabaco (…) não é formalmente diferente da dependência de prestígio, de uma carreira bem-sucedida, de influência mundial, de riqueza, da necessidade de se construir bombas mais engenhosas, ou da necessidade de se exercer controle sobre tudo.

O editor da revista Science descreve a dependência da nação em relação ao petróleo como um vício, enquanto o Vice-Presidente Al Gore afirma que estamos viciados no consumo da própria Terra[2]. Em Steps to an Ecology of Mind (Passos para uma Ecologia da Mente), o filósofo evolutivo Gregory Bateson assinala que o comportamento viciado está de acordo com a abordagem ocidental da vida, que coloca mente contra corpo. Bateson conclui: “É de se duvidar se uma espécie que tem tanto uma tecnologia avançada quanto esse estranho modo polarizado de encarar o mundo é capaz de sobreviver”.

Para esclarecer essa noção de que a sociedade contemporânea em si mesma está baseada no que eu chamo de “vício tecnológico”, basta lembrarmo-nos que nenhuma máquina funciona por conta própria. Em outras palavras, ficaremos para sempre aprisionados a uma análise narcisista do tipo “mas eu quero minha mamografia” enquanto percebermos a tecnologia apenas como máquinas específicas que ou nos servem individualmente ou não. Aquilo que Lewis Mumford chama de “ordem mecânica” ou de “megamáquina” é todo um sistema psico-sócio-econômico que inclui todas as máquinas em meio a nós; todas as organizações e métodos que tornam essas máquinas possíveis; aqueles dentre nós que habitam esse construto tecnológico; os modos através dos quais somos socializados e pelos quais exigem que participemos do sistema; e os modos pelos quais pensamos, percebemos e sentimos enquanto tentamos sobreviver dentro desse sistema.

O que estou descrevendo é um sistema social construído pelos humanos e centrado na tecnologia, estabelecido sobre os princípios de padronização, eficiência, linearidade e fragmentação, como uma linha de montagem que atinge as cotas de produção, mas não dá a mínima para as pessoas que a operam. Dentro desse sistema, a tecnologia exerce influência sobre a sociedade. A indústria automotiva reorganizou completamente a sociedade estadunidense no século XX. Da mesma forma, as armas nucleares definem a política global. Ao mesmo tempo, a sociedade reflete o ethos (mentalidade) tecnológico. A organização social dos locais de trabalho, assim como sua arquitetura, refletem os princípios mecanicistas de padronização, eficiência e cotas de produção.

A partir de nossa experiência cotidiana dentro da sociedade tecnológica de massa, notaremos que atos “normais” como ficar na fila, obedecer aos sinais de trânsito, ou alistar-se no serviço militar, todos constituem atos de participação nesta grande máquina. Considerar nossas mentes e nossos corpos como desconectados na saúde e na doença, ou pensar que o lixo radioativo enterrado no solo não irá eventualmente infiltrar-se nos lençóis freáticos, são sintomas do pensamento fragmentário que emerge dessa ordem mecânica.

A tecnologia e a sociedade estão completamente entrelaçadas. “A tecnologia tornou-se nosso meio ambiente assim como nossa ideologia.”, escreve o crítico social holandês Michiel Schwarz, “Não mais usamos a tecnologia, nós a vivemos.”[3].

Vine Deloria, um indígena Sioux e autor de muitos livros sobre a história e a política indígena, descreve os resultados dessa imbricação sociotecnológica como “o universo artificial”:

O mundo selvagem transformado em ruas de cidades, linhas de metrô, edifícios gigantescos e fábricas resultou na substituição completa do mundo real pelo mundo artificial do humano urbano. (…) Cercadas por um universo artificial em que os sinais de alerta não são a aparência do céu, o grito dos animais, a mudança das estações, mas sim o mero lampejo do semáforo e a sirene da ambulância e da viatura de polícia, as pessoas do meio urbano não fazem ideia de como o universo natural é[4].

Langdon Winner, em sua obra Autonomous Technology (Tecnologia Autônoma), leva essa ideia mais longe, argumentando que os artefatos e os métodos inventados desde a revolução tecnológica desenvolveram-se em dimensões e em complexidade ao ponto de cancelarem nossa capacidade mesma de compreendermos seu impacto sobre nós. A realidade científico-tecnológica socialmente estruturada que agora ameaça determinar todos os aspectos de nossas vidas e cobrir o planeta inteiro está fora de controle, afirma ele.

A imersão total, a perda de perspectiva e a perda de controle nos dão uma indicação da conexão entre o processo psicológico do vício e o sistema tecnológico. O vício pode ser compreendido como uma doença progressiva que começa com mudanças psicológicas interiores e leva a mudanças na percepção, no comportamento e no estilo de vida, e então ao colapso total. O sinal distintivo desse processo é a compulsão descontrolada e muitas vezes sem propósito de preencher uma sensação perdida de sentido e de conexão com substâncias como o álcool ou experiências como a fama.

Por todo o sistema tecnológico, os sintomas reconhecidos do processo viciante estão descaradamente evidentes. Eles são óbvios no comportamento daqueles que promovem a tecnologia para manter o controle sobre a sociedade ou para inflar suas próprias contas bancárias e seus próprios egos. E eles são evidentes para todos nós porque nossa experiência, nosso conhecimento e nosso senso da realidade foram moldados pela vida no mundo tecnológico. Os sintomas do processo viciante que serão discutidos aqui incluem a negação, a desonestidade, o controle, os transtornos de pensamento, o sentimento de grandiosidade e a desconexão em relação aos próprios sentimentos.

Negação

Um dos sinais distintivos de todo vício é a presença da negação. O alcoólatra praticante finge que tudo está normal e mantém as aparências a qualquer custo. Do mesmo modo, em relação à tecnologia e à destruição ambiental, uma postura generalizada na sociedade de que “esse é o curso normal das coisas” permeia nossas vidas. A negação abunda. A indústria automotiva dentro e fora do país continua produzindo em massa novos modelos de carros poluentes. A televisão veicula a propaganda desses carros. Nós continuamos a comprá-los. O governo dos Estados Unidos nega uma ligação entre o desenvolvimento tecnológico e o aquecimento global, enquanto um presidente após o outro propõe mais desenvolvimento tecnológico como a resposta ao desastre ambiental. A indústria do plástico inunda os mercados mundiais com produtos derivados do petróleo, valendo-se até mesmo da ideia de bancos de parque feitos de plástico reciclado como uma desculpa para produzir ainda mais. A medicina oficial nega a existência das doenças ambientais. As corporações negam o impacto ambiental dos processos de produção tóxicos.

As pessoas que sobreviveram à tecnologia passam por um sofrimento ainda maior, à medida que encontram uma negação generalizada de que suas doenças sejam causadas pela tecnologia – negação pela indústria dos seguros, pelo sistema judiciário, pela medicina oficial, pelos meios de comunicação, e até mesmo por amigos e familiares. Tal como o ativista de Love Canal Lois Gibbs me disse:

Eu fui ao pediatra do meu filho e disse: “Veja bem, há oito pacientes que têm você como médico deles. Todos eles ainda não completaram doze anos de idade, todos eles têm um transtorno urinário semelhante. Qual é o porquê disso? O que você me diz do fato de que você tem oito pacientes que vivem a uma distância de alguns quarteirões de Love Canal que têm a mesma doença?”. Ele me disse: “Não há conexão”[5].

Desonestidade

Este sintoma manifesta-se no alcoólatra no ato de beber às escondidas, no comportamento furtivo, e no ato de mentir a respeito de seus sentimentos e atividades. Em relação ao vício em tecnologia, a desonestidade revela-se mais explicitamente no comportamento de corporações e de agências do governo cujo interesse pessoal é oferecer tecnologias nocivas. Sabemos, por exemplo, que os responsáveis pela empresa A. H. Robins, fabricante do DIU Dalkon Shield, sabiam de antemão do potencial risco médico de seu produto. Não obstante, eles colocaram o produto no mercado, e quando relatórios e estudos indicando efeitos nocivos vieram a público, a empresa A. H. Robins alegou total ignorância[6].

Controle

Os viciados precisam controlar o mundo deles a fim de manter o acesso à fonte de sua obsessão. Uma viciada em trabalho que eu conheço, que dirige um pequeno instituto, é incapaz de negociar até mesmo o menor dos acordos, porque contribuições de outras pessoas contrariam seu senso de controle. Do mesmo modo, as corporações multinacionais de hoje em dia demonstram uma obsessão em controlar os recursos mundiais, os mercados consumidores, o comportamento dos trabalhadores e a opinião pública em relação aos seus produtos.

Consideremos também a estrutura mesma da tecnologia moderna. Os tipos de tecnologia que uma sociedade desenvolve não são tão absolutos ou tão predeterminados quanto nosso ethos (mentalidade) de progresso linear gostaria de nos fazer acreditar; eles expressam os objetivos de uma sociedade, tanto conscientes quanto inconscientes. Na sociedade tecnológica de massa, há uma notável semelhança entre os tipos de tecnologia produzidos e os modos tirânicos de poder político. Poderíamos, em tese, concentrar nossos esforços tecnológicos em invenções que nos permitiriam satisfazer necessidades humanas básicas do modo mais sustentável possível. Em vez disso, procuramos desenvolver tecnologias, desde barragens até cremes antienvelhecimento, que nos permitem um grau crescente de controle sobre o mundo natural.

Esse desejo de controle muitas vezes sai pela culatra, quando os humanos assumem uma posição de dependência extrema dos artefatos técnicos, e as fronteiras entre quem é o senhor e quem é o escravo desvanecem. O que acontece com nossas vidas quando nossos carros enguiçam ou quando nossos telefones entram em pane? O que acontece quando você não possui um aparelho de fax, um computador ou um carro? O domínio da tecnologia sobre nossas vidas também se traduz em desempoderamento político. A própria concepção, invenção, desenvolvimento e implantação de novas tecnologias envolve um processo social altamente não democrático que é racionalizado como “progresso”. A experiência de vida daqueles que sobreviveram à tecnologia comprova este fato: geralmente, eles são expostos a eventos tecnológicos que os privam de sua saúde e de seus meios de subsistência sem qualquer aviso prévio ou possibilidade de escolha.

Se os tipos particulares de tecnologia em meio a nós existem para promover o domínio e o poder, devemos nos perguntar: para quem? E sobre quem? Os moinhos de vento e as ocas expressam valores democráticos e ecológicos porque as próprias pessoas que os inventam, produzem e mantêm são as mesmas que os usam. Em contraste, as tecnologias disseminadas na sociedade de massa refletem uma mentalidade de controle sobre o mundo natural, sobre o espaço, sobre as outras pessoas e até mesmo sobre nós mesmos. Tal como Jerry Mander coloca, manter uma usina nuclear requer um controle rígido e centralizado tanto por parte do governo quanto da indústria, primeiramente, para levar a cabo um projeto que exige tamanho investimento de capital; em segundo lugar, para conquistar a opinião pública; e finalmente, para oferecer apoio militar em caso de sabotagem, acidentes ou protestos públicos. A presença de armas nucleares, biológicas e químicas no arsenal de uma nação não só controla os inimigos dessa nação; ela também amedronta e intimida, e, desse modo, controla os próprios cidadãos dessa nação.

Transtornos de pensamento

Os alcoólatras e outras pessoas que abusam de substâncias tipicamente empregam modos de pensamento que servem às necessidades imediatas do vício, ao invés do bem-estar da pessoa em longo prazo. Isso se vê, por exemplo, no alcoólatra que bebe para aliviar o sofrimento físico e emocional da ressaca.

Do mesmo modo, grande parte do pensamento na sociedade tecnológica de massa é disfuncional. Muitas pessoas adotam a “solução tecnológica” como resposta para problemas sociais, psicológicos e médicos causados por soluções tecnológicas anteriores. Por exemplo, um programa governamental proposto pretende cobrir os oceanos com placas de poliestireno que, assim se espera, refletirão a luz solar “indesejada” para fora da superfície da Terra e nos salvarão do aquecimento global. De modo semelhante, alguns cientistas sugerem lançar centenas de satélites em órbita ao redor do planeta para bloquear a luz do Sol[7]. Isso é pensamento viciado pela tecnologia em sua forma mais sofisticada.

Grandiosidade

A ilusão de poder expandido do alcoólatra praticante é bem conhecida. A ilusão de grandeza que move o desenvolvimento tecnológico é menos evidente, mais fictícia. Essa grandiosidade insiste que a sociedade tecnológica de massa é superior a todos os outros modos de organização social. Isso implica que a evolução humana é linear e sempre progressiva, e que todas as sociedades deveriam ser julgadas pelo critério das conquistas tecnológicas.

O principal meio de socialização da sociedade tecnológica, as Relações Públicas, é o que dá à tecnologia sua grandiosidade. “Controle as possibilidades.”, sugere a propaganda do MasterCard. “O que exatamente o computador mais poderoso e avançado do mundo pode fazer? Tudo o que ele quiser!”, promete o Compaq Desk-Pro. Ao mesmo tempo, as “armas inteligentes” postas em ação durante a Operação Desert Storm (Tempestade no Deserto) e televisionadas em rede nacional propagandeiam que a tecnologia estadunidense e os Estados Unidos são “o número um”. Por trás dessa insistência deveras fervorosa, encontra-se a compulsão fora de controle e muitas vezes sem propósito de criar expressões de grandiosidade cada vez maiores – e o que constitui o sinal distintivo do viciado, de retornar constantemente à fonte de enaltecimento. Precisamos de mais carros, de mais televisores, de mais barragens, de mais tecnologias novas para provarmos nossa grandiosidade.

Desconexão em relação aos sentimentos

Os alcoólatras transbordam de emoções, mas eles não conseguem expressar-se direta ou construtivamente. Em vez disso, seus sentimentos estão ocultos sob as sombras de seus inconscientes, e assim eles negam seus próprios sentimentos e vivem em um estado de emoção petrificada.

De modo semelhante, a sobrevivência no sistema tecnológico requer que fiquemos “frios” e que nos comportemos como máquinas. O sinal distintivo da educação tecnológica é aprender matemática para quantificar a realidade, e dominar o pensamento fragmentário para cumprir uma função em um mundo mecanicista. Cada matéria que aprendemos na escola parece não ter relação com as outras.

A sociedade tecnológica de massa está estruturada “de cima para baixo”, de modo que a sua natureza fragmentada impede a maioria de nós de sequer vislumbrar uma compreensão do todo. O Projeto Manhattan, que construiu as bombas que mataram centenas de milhares de pessoas em Hiroshima e Nagasaki, foi estruturado de acordo com um modelo militar mecanicista. O projeto incluía 37 instalações espalhadas ao longo dos Estados Unidos e do Canadá, cada uma delas fornecendo um fragmento do processo de produção[8]. No Laboratório de Los Alamos, o trabalho era propositalmente realizado com uma compartimentação de tarefas e uma censura da comunicação entre os cientistas que permitia a cada um dos envolvidos perder seu senso de vulnerabilidade e envolver-se em atividades cujas consequências não podiam ser sentidas, nem sequer compreendidas.

A consequência dessa abordagem da vida é que os sentimentos, as experiências e as percepções tornam-se desconectados uns dos outros, e o inconsciente torna-se o receptor de sentimentos reprimidos. Como resultado, muitos de nós tendem a ficar em um estado de semiconsciência: as violações hediondas e subterrâneas à nossa volta catalisam nossos sentimentos, mas não sendo reconhecidos e não sendo considerados bem-vindos pelo mundo mecanicista, nós os extravasamos em comportamentos que não sentimos nem compreendemos; como, por exemplo, jogar a bomba atômica.

Devemos reconhecer o vício sistêmico na sociedade tecnológica de massa se um dia quisermos alcançar um estado de bem-estar psicológico e tecnológico. O movimento de reabilitação em 12 passos diz que o viciado precisa fazer “um inventário moral minucioso e corajoso” de si mesmo. No nível pessoal, isso inclui assumir a responsabilidade por casos em que violamos a integridade de outra pessoa. No nível coletivo, teríamos que assumir a responsabilidade pelas incontáveis violações da sociedade tecnológica contra a humanidade, os animais, o mundo das plantas e a Terra. Mas para que nossos corações dilacerados possam superar o processo viciante, precisamos ficar atentos. Tal como o psicoterapeuta Terry Kellogg nos diz, o comportamento viciado não é natural à espécie humana. Ele ocorre porque alguma violação insuportável aconteceu conosco[9].

E, de fato, passamos por uma violação insuportável: um trauma coletivo que explica a realidade insidiosa do vício e do abuso que infunde nossas vidas na sociedade tecnológica de massa. O Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais) define trauma como “um evento que está fora do espectro da experiência humana e que seria marcadamente angustiante para quase todo mundo”[10]. O trauma sofrido por pessoas tecnológicas como nós é a remoção sistêmica e sistemática de nossas vidas do mundo natural: das gavinhas de texturas terrosas, dos ritmos do Sol e da Lua, dos espíritos dos ursos e das árvores, da própria força vital. O trauma é também a remoção sistêmica e sistemática de nossas vidas do tipo de experiências sociais e culturais que nossos ancestrais tinham quando eles viviam em sintonia com o mundo natural.

Vine Deloria afirma corretamente que nós, pessoas tecnológicas, “não fazemos a menor ideia” de muito daquilo que se encontra fora do “universo tecnológico artificial com o qual estamos familiarizados.”. Os seres humanos evoluíram ao longo de cerca de três milhões de anos e de cem mil gerações em evolução sincrônica com o mundo natural. Somos criaturas que surgiram da Terra, que são física e psicologicamente constituídas para desenvolver-se em intimidade com a Terra. Há meras trezentas gerações, ou 0,003 % de nosso tempo na Terra, os humanos no mundo ocidental iniciaram o processo de controle do mundo natural através da agricultura e da domesticação de animais. Apenas cinco ou seis gerações se passaram desde que as sociedades industriais emergiram a partir desse processo de domesticação. Nossa experiência na sociedade tecnológica de massa de fato está “fora do espectro da experiência humana”, e pelas evidências de sofrimento psíquico, destruição ecológica e controle tecnológico, este modo de vida tem sido “marcadamente angustiante” para quase todo mundo.

Embora seja um fato amplamente ignorado, evidências saltam das páginas de textos antropológicos sugerindo que as mesmas qualidades psicológicas perseguidas com tanto afinco pelos movimentos psicológicos, espirituais e de reabilitação de hoje em dia; as igualdades sociais pelas quais os movimentos de justiça social dos dias de hoje lutam tão corajosamente; e as conquistas ecológicas perseguidas pelos movimentos ambientalistas de hoje em dia, são as mesmas qualidades e condições sob as quais nossa espécie viveu por mais de 99,997 % de sua existência.

Os povos baseados na natureza viviam todos os dias de suas vidas no mundo selvagem. Estamos apenas começando a compreender como esse modo de vida atendia às expectativas inerentes à psique humana de desenvolvimento para a maturidade e a saúde plenas. Nos povos baseados na natureza que até hoje ainda mantêm alguns traços de sua relação com a Terra e com suas culturas baseadas na Terra, podemos discernir um senso de serenidade resoluto para com a vida cotidiana, um nítido senso de identidade e de dignidade, uma sabedoria que a maioria de nós é capaz de admirar apenas de longe e uma ausência do vício e do abuso que, na civilização, tornaram-se sistêmicos.

A perda dessas experiências psicológicas e culturais em face de uma realidade cada vez mais construída pelos humanos e, no fim das contas, determinada pela tecnologia, e a perda de um viver em participação fluída com o mundo selvagem, constituem o trauma que nos foi legado.

O sinal distintivo da resposta traumática é a dissociação: um processo através do qual efetuamos uma ruptura em nossa consciência, reprimimos campos inteiros de experiência e bloqueamos nossa plena percepção do mundo. A dissociação resulta não apenas da experiência traumatizante direta, mas também do tipo de transformações sociais que ocorreram no processo histórico de domesticação. Em sua obra Nature and Madness (Natureza e loucura), Paul Shepard descreve esse processo como o início de uma dicotomia outrora desconhecida entre selvagem e domesticado na qual todas as coisas consideradas domesticadas (mudas de plantas cultivadas, animais capturados e a mentalidade mecanicista e controladora necessária para mantê-los vivos) são valorizadas e protegidas, enquanto todas as coisas consideradas selvagens (“ervas daninhas”, animais selvagens e o modo fluído e participativo de ser humano) são consideradas ameaçadoras e dignas de serem mantidas à distância.

Essa divisão entre selvagem e domesticado está na base tanto da personalidade viciada quanto da sociedade tecnológica. Em última análise, essa divisão nos aprisiona à realidade construída pelos humanos e causa todas as dicotomias desnecessárias e problemáticas com as quais nos debatemos hoje em dia – desde masculino/feminino e mente/corpo, até secular/sagrado e tecnológico/baseado na Terra.

O afastamento da sociedade tecnológica em relação ao único lar que um dia conhecemos é um evento traumático que ocorreu ao longo de gerações e que ocorre novamente em cada uma das fases de nossa infância e em nossas vidas cotidianas. Em face dessa ruptura, sintomas de estresse traumático não são mais um evento raro causado por um acidente esdrúxulo ou por condições climáticas extremas, mas a substância mesma da vida cotidiana de todo homem e de toda mulher.

À medida que a vida humana passa a ser estruturada cada vez mais por meios mecanicistas, a psique se reestrutura a fim de sobreviver. O construto tecnológico corrói as fontes primárias de satisfação que antes faziam parte da rotina da vida na natureza selvagem, tais como a nutrição física, a comunidade vital, os alimentos frescos, a continuidade entre trabalho e sentido, a participação direta nas experiências de vida, nas escolhas pessoais e nas decisões comunitárias, e a conexão espiritual com o mundo natural. Essas são as necessidades que nascemos para satisfazer. Privados da satisfação dessas necessidades, não é possível que tenhamos uma vida saudável. Na ausência dessas necessidades, desolada e em choque, a psique encontra uma satisfação temporária ao buscar fontes secundárias como as drogas, a violência, o sexo, os bens materiais e as máquinas. Embora esses estimulantes possam satisfazer no momento, eles nunca serão capazes de satisfazer verdadeiramente as necessidades primárias. E assim nasce o processo viciante. Tornamo-nos obcecados por fontes secundárias como se nossas vidas dependessem delas.

O mundo hoje está inundado em um mar de vícios tanto pessoais quanto coletivos: o alcoolismo, o abuso de drogas, o vício em sexo, o consumismo, os transtornos alimentares, a codependência e a beligerância. Em seu livro Co-Dependence (Codependência), a psicoterapeuta Anne Wilson Schaef coloca que, sob esses comportamentos, encontra-se um processo de adoecimento identificável “cujos pressupostos, sentimentos, comportamentos e falta de ânimo levam a um processo de não-vida que é progressivamente voltado à morte.”. Embora suas palavras descrevam o processo viciante em indivíduos, elas também caracterizam o vício tecnológico da civilização. A sociedade está viciada em tecnologias específicas como carros, supercomputadores e armas biológicas, e todas elas facilitam uma propensão doentia ao controle, entorpecem a psique em relação à dor e nutrem momentaneamente uma sede de poder.

O vício tecnológico é também um vício a um determinado modo de perceber, experimentar e pensar. À medida que o mundo tornou-se menos orgânico e mais dependente de soluções tecnológicas para problemas criados por soluções tecnológicas anteriores, os humanos renunciaram a uma visão de mundo antes repleta de águas límpidas e impetuosas, coiotes, constelações de estrelas, lendas dos ancestrais e pessoas cooperando umas com as outras com um propósito sagrado, em troca de uma nova visão de mundo. Mas os ancestrais do mundo ocidental tomaram para si a tarefa crucial de redefinir sua visão de mundo em um estado de deslocamento psíquico, e assim eles acabaram fazendo a projeção de uma visão de mundo que reflete a raiva, o terror e a dissociação do estado traumatizado. Eles sonharam não com um mundo do qual os humanos fizessem parte plenamente, mas sim com um mundo que podemos definir, compartimentar e controlar. Eles criaram a perspectiva linear, o paradigma científico-tecnológico e a visão de mundo mecanicista.

A vida na Terra empacotada como o produto dessa construção é, para citar o povo Hopi, irremediavelmente koyaanisqatsi, ou seja, fora de equilíbrio. Enquanto psicóloga, acredito que lidar com esse desequilíbrio desde suas raízes exigirá mais do que políticas públicas, regulamentações ou legislação; é algo que exigirá um processo psicológico coletivo para curar a nós, povos tecnológicos que, graças a uma cultura mecanizada, perderam o contato com nossa humanidade essencial.

Notas:

[1] David Maraniss e Michael Weisskoff, “Corridor of Death along the Misssippi”, San Francisco Chronicle, January 31, 1988; Jay Gould, Quality of Life in American Neighborhoods (Boulder, Co.: Westview, 1986), 2:117-20; Critical Mass Energy Project, “The 1986 Nuclear Power Safety Report” (Washington, D.C.: Public Citizen, 1986); Daniel F. Ford, Three Mile Island (New York: Penguin, 1982); Aerometric Information and Retrieval System: 1988, with Supplemental Data from Regional Office Review (Washington, D.C.: Environmental Protection Agency, July 1989); Unfinished Business: A Comparative Assessment of Environmental Problems (Washington, D.C.: Environmental Protection Agency, Office of Policy Analysis, February 1987), pp. 8-86; Lawne Mott e Karen Snyder, “Pesticide Alert”, Amicus Journal 10, no.2 (Spring 1988), 2; e Information Disease Almanac, 1986 (Boston: Houghton Mifflin, 1986), p. 129.

[2] D. F. Koshland, “War and Science”, Science 251, no. 4993 (February 1, 1991), 497; Al Gore, Earth in the Balance (Boston: Houghton Mifflin, 1992).

[3] Michiel Schwarz e Rein Jansma (eds.), The Technological Culture (Amsterdam: De Bailie, 1989), p. 3.

[4] Vine Deloria, We Talk, You Listen (New York: Delta, 1970), p. 185.

[5] Chellis Glendinning, When Technology Wounds (New York: Morrow, 1990), p. 66.

[6] Morton Mint, At Any Cost: Corporate Greed, Women and the Dalkon Shield (New York: Pantheon, 1985), chapter 3.

[7] Jerry Mander, In the Absence of the Sacred: The Failure of Technology and the Survival of the Indian Nations (San Francisco: Sierra Club Books, 1991), p. 179.

[8] Richard Hewlett e Oscar Anderson Jr., The New World, 1939-1946: A History of the Atomic Energy Commission (University Park: Pennsylvania State University Press, 1962), p. 3.

[9] Terry Kellogg, “Broken Toys, Broken Dreams” (Santa Fe, N.M.: Audio Awareness, 1991). Audiotape.

[10] Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 3d ed. (Washington, D.C.: American Psychiatric Association, 1987).

 

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