Sobre

O objetivo deste site é levantar o debate sobre crítica à civilização a partir de uma perspectiva eco-anarquista.

O coletivo contraciv é a continuação de uma atividade, que vem desde 2002, de tradução, debate e divulgação de uma perspectiva pouco discutida, que é a crítica à civilização.

A crítica à civilização, como a crítica ao capitalismo, não é necessariamente anarquista ou primitivista, mas há relações de afinidade. Este tema não é novo, porém ainda não encontrou um campo fértil para discussão.

Uma das críticas mais comuns é que a crítica à civilização não oferece nenhuma perspectiva de atuação, nenhum projeto político definido. Umas das formas mais comuns de dispensar esse assunto é acusar de romantização do passado e das culturas nativas. Compreendemos que, apesar de reconhecer esses problemas, as questões colocadas pela crítica permanecem sendo importantes. Um projeto político viável só pode ser construído depois que um problema é reconhecido. O passado sem tecnologia é frequentemente idealizado, mas o futuro com tecnologia é mais ainda.

Criticar a ideologia civilizatória é ainda mais complexo do que criticar a ideologia burguesa. A maioria dos movimentos sociais está interessada em melhorar as condições de vida dos trabalhadores, mas não propõem uma contraposição à civilização. Umas das poucas exceções são os movimentos indígenas. A civilização ainda não é vista pela maioria das pessoas como um problema em si. A maioria das perspectivas políticas tradicionais é negacionista em relação ao problema da civilização. Para uma quantidade crescente de pessoas, porém, o fracasso da civilização é inegável.

Até hoje, nenhuma revolução produziu algo além da civilização, enquanto certos povos permanecem resistindo a ela há milhares de anos. As demandas políticas convencionais parecem estar sempre tratando de aspectos isolados da civilização, das peças mas não do tabuleiro. O discurso revolucionário moderno parece estar tão enraizado em filosofias que defendem a civilização quanto o discurso reacionário. Uma vez que estamos todos concentrados em melhorar as condições civilizadas, qualquer ruptura com o modo de existência civilizacional será visto como retrocesso.

Devemos avaliar os pontos positivos e negativos da civilização, mas também seus fundamentos. Se seus fundamentos são insustentáveis, então seus benefícios se tornam temporários. Seria como perguntar pelos benefícios possíveis dentro de um campo de concentração. A civilização só se torna questionável quando estar dentro ou fora dela passa ser discutido.

É preciso desinvisibilizar a possibilidade de uma vida não-civilizada. Trazer valores incivilizados para a vida civilizada não é suficiente, mas mantém nossa humanidade viva, e nos prepara para uma fuga subterrânea.

A melhor maneira de introduzir alguém a essa perspectiva é perguntar quais suas razões para crer que a civilização seja viável. Por exemplo: Podemos demonstrar que os valores da civilização são coerentes com o habitat natural dos seres humanos? O que caracteriza, afinal, vida humana em seu estado original, selvagem, não-domesticado? Há alguma superioridade ou universalidade dos valores da cultura civilizada? Não são perguntas simples, mas elas podem definir as bases do seu pensamento em relação à civilização.

Consideramos a civilização não como um novo meio para a vida humana, mas sim um desvio da vida humana. Nos encontramos como que viciados em civilização, capazes de nos agarrar a ela mais do que à nossa própria vida.

O fim da civilização só será catastrófico se não estivermos preparados para viver sem ela. A permanência da civilização é um problema para todos, tanto para quem está dentro dela quanto para quem se afasta dela o máximo que pode. Enquanto houver dependência dessa estrutura, haverá dominação. Para abandonar a civilização, é preciso diminuir nossa dependência. Iniciar esse processo seria o equivalente a inverter a direção do processo civilizador. A tragédia é inevitável somente enquanto houver potência de destruição acumulada. A questão é se continuaremos expandindo-a ou começaremos a esvaziá-la. Despotencializar a civilização e repotencializar a vida é a única saída.

Toda vez que você sonha com uma vida livre dos condicionamentos civilizados ao invés de uma vida livre das condições naturais; uma vida onde as relações não são reguladas pelos valores de sociedades civilizadas, e toda vez que incentiva outros a sonharem com isso e pauta suas ações nisso ao invés de ambições de controle, você enfraquece a civilização. A única coisa que a civilização não pode controlar são pessoas desinteressadas no controle da natureza e na melhoria artificial da vida. Este site reflete um esforço para colaborar com pessoas que, por qualquer motivo, se interessam cada vez menos pela manutenção da lógica domesticadora da civilização.

Ver também: Críticas comuns e FAQ anticiv

Nossa política

Nós somos eco-anarquistas anticapitalistas. Defendemos a construção de espaços autônomos como forma de diminuir a dependência do Estado, do capital e da civilização industrial. Também defendemos os interesses das populações indígenas, rurais, pobres, discriminadas ou que sofrem qualquer tipo de opressão estrutural.

A civilização é uma realidade concreta que determina uma relação de poder e um discurso dominante. A luta contra ela sempre existiu, como os movimentos indígenas e decoloniais podem atestar. Somos contra o capitalismo, o conservadorismo, o patriarcado, o racismo, o colonialismo, a tecnocracia e o uso de animais. Como essas coisas são combatidas na prática? Com organização de grupos, pequenos ou grandes, que visam a mudança social, com objetivos de curto ou longo prazo, em contextos locais diversos.

A crítica à civilização é uma questão teórica que implica numa luta política. Ela redimensiona um objetivo de longo prazo, questionando o modo de vida urbanizado e tecnocentrado. É uma luta contra uma cultura dominante. Ela implica em participar de ações e projetos educacionais, ecológicos e sociais. A crítica ao capitalismo, ao patriarcado e ao racismo é indispensável para a anticiv. Organizar-se em todos esses espaços com uma perspectiva anticiv não é contraditório nem hipócrita, pelo contrário, é necessário.

A crítica à civilização questiona conceitos básicos, como civilização, natureza, tecnologia e progresso, mas não é incompatível com ações políticas que ainda partem do significado “padrão” desses conceitos. Não se trata de fazer boicote à civilização. O problema da civilização deve ser encarado a partir das lutas políticas pelas condições básicas de vida humana.

Nossos argumentos podem e devem ser criticados. O discurso anticiv, como qualquer outro, pode ser associado com perspetivas politicamente contraditórias, como o eco-terrorismo ou o individualismo liberal. Nossos conceitos podem ser usado por ideologias conservadoras, misóginas e racistas, que defendem um ideal autoritário de ser humano e naturalizam relações de poder. É preciso se opor ativamente a essas distorções.

Contato

E-mail: contraciv@riseup.net