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Este site tem o objetivo de levantar o debate sobre a perspectiva anarquista da crítica à civilização, tanto no meio anarquista quanto em outros meios.

A principal dificuldade em compreender a crítica à civilização talvez seja que ela não é um tema simples; ela é uma perspectiva a partir da qual podemos refletir sobre diversos aspectos da realidade social e humana.

Para a maioria das pessoas, a crítica à civilização não oferece nenhuma perspectiva de atuação, porque não saberíamos o que fazer com as pessoas atualmente vivas sem as condições civilizadas. Seria como boicotar a única fonte de vida de bilhões de pessoas. Mas compreender isso não elimina o peso das questões colocadas pela crítica. Toda crítica social pode alimentar um ceticismo quanto às possibilidades de mudança social pelas vias de ação convencionais. Para alguns, ter um projeto político viável que produza resultados visíveis parece suficiente.

A tensão entre fazer o que é possível ou tentar o que até então foi impossível parece inevitável. Mas essa tensão é uma falsa bifurcação. Banqueiros diante de qualquer crítica ao capitalismo poderiam dizer que é ilusão acreditar que é possível viver sem o atual sistema econômico. Qualquer tentativa de abandoná-lo produziria nada mais que a morte e a miséria de pessoas, além de encontrar resistência de todos os poderes globais. Talvez estejamos tão mergulhados no paradigma civilizacional quanto estes banqueiros estariam mergulhados nos seus paradigmas econômicos.

Os movimentos sociais estão interessados em melhorar as condições de vida, e não necessariamente irão propor uma contraposição à civilização. A civilização, por sua vez, talvez não dependa dos elementos que os movimentos tentam eliminar da nossa sociedade. O processo civilizatório se encarrega de eliminar tudo que se torna inútil à sua própria perpetuação.

Até hoje, nenhuma revolução produziu algo além da civilização. As demandas políticas convencionais parecem estar sempre embasadas em algum aspecto da civilização. O discurso revolucionário parece estar tão enraizado em filosofias que defendem a civilização quanto o discurso reacionário. Uma vez que estamos todos concentrados em aumentar nosso bem-estar, qualquer ruptura com o paradigma civilizacional será visto como retrocesso.

Podemos fazer mais do que avaliar os pontos positivos e negativos da civilização. Podemos avaliar seus fundamentos. Se seus fundamentos são insustentáveis, então perguntar somente pelos seus benefícios seria como perguntar pelos benefícios possíveis dentro de uma jaula. A civilização só se torna questionável quando estar dentro ou fora da prisão é o que realmente importa.

É preciso desinvisibilizar a possibilidade de uma vida não domesticada. Trazer valores incivilizados para a vida civilizada não é suficiente, mas mantém nossa humanidade viva, e talvez nos prepare para uma fuga subterrânea.

A melhor maneira de introduzir alguém a essa perspectiva é perguntar pelas razões para crer que a civilização seja viável. Esta crítica pode ser tanto ética quanto política. Podemos demonstrar que os fundamentos da civilização são coerentes com a vida humana? Há algo de errado com a vida humana em seu estado original ou selvagem? Há alguma superioridade ou universalidade dos valores da cultura civilizada que nos indique o caminho para superar nossa “animalidade”? Não há respostas simples para essas questões. Mas sabemos que o ato de civilizar conduz ao processo de abandono do habitat natural.

A civilização não é um meio para a vida humana, e sim um desvio para longe da vida humana. A civilização dá suporte à vida humana no mesmo sentido em que um campo de concentração dá suporte à vida de seus prisioneiros. Nesse contexto não há espaço para autonomia. Somos totalmente viciados em civilização, capazes de nos agarrar a ela mais do que à nossa própria vida.

O fim da civilização só será pior que sua continuação se não estivermos preparados para viver sem ela. A permanência da civilização é problema tanto para quem deseja se afastar dela quanto no caso dela entrar em colapso. Enquanto houver dependência da civilização, haverá dominação. Para abandonar a civilização, é preciso diminuir nossa dependência dela. Iniciar esse processo seria o equivalente a inverter a direção do processo civilizador. A tragédia é inevitável somente enquanto houver potência de destruição acumulada. A questão é se continuaremos expandindo-a ou começaremos a esvaziá-la. Despotencializar a civilização e repotencializar a vida é a única saída.

Toda vez que você sonha com uma vida livre das condições civilizadas ao invés de uma vida livre das condições naturais, uma vida onde as relações não são reguladas pelo interesse em acúmulo e expansão de poder; e toda vez que incentiva outros a sonharem com isso; e pauta suas ações nisso ao invés de ambições de controle, você enfraquece a civilização. A única coisa que a civilização não pode controlar são pessoas desinteressadas no controle da natureza e na melhoria de uma vida artificial. Este site é parte de um esforço para colaborar com pessoas que, por qualquer motivo, se interessam cada vez menos pela manutenção da lógica civilizacional.

É difícil não ficar desorientado com tal perspectiva, mas nosso objetivo não é desorientar, e sim construir autonomia.

Contato: contraciv@riseup.net