
Sobre a relação entre o discurso tecno-redentivo e a secularização de crenças teológicas na auto-redenção humana.
Quando alguém perde o emprego ou perde a família ou é expulso de casa e vai morar na rua, dizemos que essa pessoa “perdeu tudo” e chegou “no fundo do poço”. Como se esse fosse o nível mais baixo que uma pessoa pudesse chegar. Mas existem pessoas com família, saúde, casa, carro e geladeira cheia que perderam coisas muito mais significativas.
Existem pessoas que, independente da sua segurança material, perderam algo fundamental para a experiência humana. Quem perdeu acesso ao consumo e meios de subsistência material está evidentemente em sofrimento, mas não deixa de ser humano por isso. Basta conversar com uma pessoa nessa situação para ver que ela não necessariamente perdeu sua capacidade de empatia, por exemplo. Ela ainda reconhece o sofrimento do outro, ainda se importa, ainda estabelece vínculo. Ainda é humana. Enquanto algumas pessoas com casa e emprego podem ter se alienado da própria humanidade justamente para obter essas coisas. Uma pessoa que vive para o acúmulo material e perdeu o critério do afeto nas suas relações perdeu aquilo que nos torna humanos. ESSE sim é o fundo do poço.
Embora isso não seja uma generalização e existam exceções em ambos os casos, via de regra o que nos faz perder aquilo que temos de mais valioso não é a falta de dinheiro. Curioso como a gente permanece culpando unicamente esse aspecto material da nossa vida. Isso é um sintoma de como a ideologia dominante é internalizada ou se reproduz estruturalmente na sociedade. A gente inveja quem perdeu tudo e tem pena de quem só perdeu o acesso a coisas materiais. Relacionar a dignidade humana com as condições materiais de consumo é reduzir a vida humana à capacidade de consumir o que é produzido ao custo de rios, montanhas e florestas. A gente ignora a riqueza das relações humanas que estabelecemos independente do dinheiro.
Não estou romantizando a pobreza, mas acho que há algo perturbador em considerar a pobreza como a pior coisa que existe e pensar que o ideal de sociedade seria todo mundo ter acesso aos bens materiais criados pela e para a civilização. Para muitas pessoas, a vida humana é impensável sem água encanada, energia elétrica, mineração e desmatamento para criar gado para produzir picanha a um preço acessível. A vida humana é impensável sem destruir as condições de vida humana na terra. A estrutura industrial não é vista como consequência da colonização, e sim como resultado do poder criativo humano ou do esforço da classe trabalhadora. Há algo profundamente equivocado nisso.
Existe, nessa visão de mundo, um pressuposto de que a tecnologia é neutra e pode ser reapropriada para benefício humano ou até mesmo da natureza. Mas essa crença raramente é defendida. Ela é simplesmente reproduzida de modo dogmático: “é lógico que a tecnologia pode ser usada para o bem, porque o ser humano é um ser racional capaz de decidir o que fazer com suas ferramentas”. As pessoas geralmente não percebem as crenças que estão por trás dessa afirmação, nem sentem necessidade de justificá-la. Ao longo da história, a tecnologia foi repetidamente reapropriada, mas para intensificar o controle sobre humanos e não-humanos, não para revertê-lo. O ônus da prova deveria estar em quem afirma que essa tendência pode ser invertida, não em quem observa o padrão histórico.
É curioso que essa crença na capacidade humana de “redimir” o dano histórico do progresso tecnológico ecoe algo mais antigo. Uma linha de pensamento que argumenta que a modernidade secularizou estruturas teológicas em vez de superá-las: o “pecado original” não anulou a capacidade humana de evitar a condenação ou de escolher fazer o bem, e essa crença na auto-redenção humana teria deixado sua marca na base filosófica do iluminismo e do humanismo, e por consequência na revolução industrial, no capitalismo e no mundo que vivemos hoje. Embora essa não seja uma posição consensual, é uma posição defensável.
A teologia auto-redentiva foi considerada herege pela igreja católica e protestante porque supostamente anula o significado da morte de Jesus: Na morte de Jesus, Deus realiza o que o ser humano não era capaz de realizar sozinho. A outra posição, vendo Jesus como mais humano do que divino, é que Jesus morreu para ensinar às pessoas que é possível um ser humano viver de forma “justa”, mesmo que isso o condene à morte, resgatando a autonomia humana sobre seu próprio destino e ensinando que a humanidade não está automaticamente condenada à injustiça, já que poderia realizar justiça com suas próprias ações, mesmo diante do poder de império, ao vencer o medo da morte. Ao aceitar Jesus como seu salvador pessoal, o indivíduo condenado à morte morre no batismo, onde nasce um novo indivíduo com capacidade de viver uma vida coerente com o amor e a justiça, pois tem a promessa de vida eterna que diminui seu medo de morrer. Embora a discussão sobre isso seja muito mais complexa, esse é um resumo simplificado.
A ideologia “tecno-salvífica” pode ser lida como uma conclusão dessas reflexões teológicas. É uma discussão que ocupou a teologia por séculos: a capacidade auto-redentiva do humano, de superar as limitações impostas por “Deus ou Natureza” sem perder sua conexão com essa força vital, isso é, sem transformar a relação de reciprocidade numa relação de poder do humano sobre o não-humano e vice-versa.
Me parece que, para boa parte da crítica anticapitalista que não rompe com o desenvolvimentismo, ou essa capacidade é um pressuposto não questionável, ou a relação de poder é justificada com algum tipo de crença na superioridade humana. O humanismo secular pegou a crença religiosa na “centelha divina” da humanidade e a transformou numa crença sobre o poder infinito da criatividade e da vontade humana. Essa crença implícita no poder infinito da mente e da ação humana é o que tornou a crença na nossa capacidade de combinar o desenvolvimento da estrutura tecnológica com a nossa permanência na comunidade ecológica da vida numa crença aceita automaticamente, sem nenhum questionamento.
Tudo isso se baseia na relação teológica entre o poder criativo de Deus e a potência criativa do ser humano. Em outras palavras, os humanistas deram um sentido salvífico à inventividade humana, à capacidade racional de compreender e manipular o mundo, o que justificou a crença de que a ciência pode tornar o mundo melhor. Não apenas o mundo humano, mas o mundo não-humano que o cerca, que inevitavelmente é manipulado para que se possa criar espaços como uma cidade, por exemplo. O espaço urbano sem interferência em ciclos ecológicos é impossível. Se você quer viver numa cidade, você está, na prática, dependendo da premissa de que o ser humano decide onde e quais seres vivos vão existir ou não, mesmo que você pessoalmente rejeite essa premissa. Não existe urbanidade sem “engenharia ambiental”. Para que a cidade exista, é preciso objetificar e cortar a relação de igualdade com os seres que existiam naquele lugar antes da cidade chegar.
Embora analogias com sistemas não-humanos de ocupação do espaço sejam usados como justificação disso, os mecanismos são completamente diferentes, e o argumento não passa de uma falácia naturalista. Não tem como justificar a existência de uma barragem feita por humanos com a existência de uma barragem feita por castores, por exemplo, quando a capacidade DE ALGUNS HUMANOS de barrar um rio não se desenvolveu em conjunto com a capacidade do rio de sustentar essa prática, como é o caso dos castores.
É importante frisar que essa é uma capacidade “de alguns humanos”, e não da humanidade em si, para não naturalizar a violência colonial. Quem são os humanos que possuem o conhecimento e os meios para construir uma hidroelétrica? Não é qualquer humano, são humanos de uma determinada cultura, que foi desenvolvida ao longo de um processo de violência, invasão e colonização, e que possuem determinado acúmulo de capital para empreender isso. Sem destruir outras formas de vida, dificilmente o conhecimento e o capital para criar hidrelétricas teriam surgido na escala e ritmo que surgiram. Além disso, sem a estrutura tecnológica, a densidade populacional humana provavelmente não teria crescido a ponto dessa fonte de energia se tornar necessária.
A crença de que a riqueza representa uma vida boa reproduz a crença de que a civilização representa uma vida boa. Se o modo de vida civilizado é fundamentalmente anti-humano, pois exige a quebra da empatia com seres humanos e não-humanos, que são transformados em “recursos”, segue-se que a acumulação de riqueza depende de alienação crescente, porque ela só pode existir na medida em que você coopera com a civilização.
É a própria civilização, não apenas o capitalismo, que produziu um isolamento tão profundo que o outro deixa de aparecer como pessoa e passa a existir apenas como instrumento, concorrente ou recurso. Nós aprofundamos a objetificação dos outros animais para aprofundar nossa própria objetificação. A transformação do humano em máquina é uma consequência quase natural da crença de que seres humanos podem criar soluções para qualquer problema que eles mesmos criem por meio do “desenvolvimento das forças produtivas”, independente do poder que isso acumule nas mãos de alguns humanos. Essa é uma leitura possível dentro da tradição eco-anarquista: o transhumanismo seria apenas a ideologia civilizatória levada às suas últimas consequências.
Uma possível evidência de como o discurso tecnológico se funde com o discurso religioso na cultura civilizatória é a popularidade do arquétipo “Jesus é um robô” na ficção científica. Esse arquétipo não apenas estabelece o robô como um herói, mas como figura messiânica num sentido quase cristão. Pense em todos os filmes em que um robô se sacrifica para salvar alguém ou a humanidade, e algumas vezes é até “ressuscitado” depois. A ideia básica de um robô como figura messiânica vem de clássicos como O Gigante de Ferro, e reaparece em muitas outras obras famosas de ficção científica.
O arquétipo “Jesus é um robô” é significativo para essa discussão porque ele demonstra como está implícito na nossa cultura a relação entre “a tecnociência irá resolver isso” e a crença de que “Deus irá nos salvar”. A tese é que a civilização não teria chegado muito longe sem algum tipo de crença salvífica que justificasse a continuação de um desenvolvimento que, de outra forma, pareceria sem sentido ou com um custo maior que o benefício. Na medida em que a civilização foi criando novos problemas, doenças e formas de violência, ela foi justificando esse sofrimento como “as dores do parto” de algo magnífico que viria depois.
Chamamos isso de promessa civilizatória, uma promessa que nunca se cumpriu, nem pode se cumprir, mas que fundamenta a confiança das pessoas em continuar com o processo independente de qualquer coisa, enquanto demoniza quem sugere a reversão do processo ou um “retorno a um modo de vida anterior” como alguém que necessariamente “quer a morte de bilhões” ou “romantiza o passado” ou ignora os benefícios da tecnologia às pessoas com necessidades especiais. O desafio da transição para algo sustentável é proporcional à radicalidade da mudança estrutural proposta, mas não é algo exclusivo da crítica à civilização.
É importante dizer que o desejo por uma “vida mais simples” continua existindo independente do quanto a tecnologia avance, e se ele é ignorado pelas ideologias anticapitalistas, ele será, como muitos outros sentimentos humanos, apropriado por ideologias autoritárias como o eco-fascismo. Mas, da crítica ao progresso não se conclui necessariamente uma solução autoritária, violenta ou que exclui minorias. Especialmente se considerarmos que é o próprio avanço tecnológico que criou as condições de escravidão, dominação e destruição de outros modos de vida. Diminuir gradualmente a dependência tecnológica pode ser difícil, mas manter uma estrutura tecnológica que destrói as condições de vida humana na terra não é só difícil, é insustentável. A necessidade tecnológica é criada pela civilização, não pode ser naturalizada. Isso exige entender a palavra “tecnologia” num sentido estrito, como criação civilizada. Tratar a “tecnologia” como qualquer uso de ferramentas ou solução de problemas pode ocultar o discurso de justificação ou naturalização de comportamentos específicos de culturas colonizadoras como se estes estivessem em continuidade com o que os seres humanos sempre fizeram.
O quadrinho acima capta bem uma objeção comum: o problema não seria a máquina, mas quem a controla, logo trocar de dono resolveria o problema. Mas essa objeção pressupõe que tecnologia e estrutura de dominação são separáveis. Na nossa definição estrita de tecnologia como criação civilizatória, ela nasce junto com a divisão do trabalho e a apropriação do excedente, não como um instrumento neutro que depois foi capturado pelo capitalismo. Criticar o uso capitalista da tecnologia é, nesse sentido, criticar a própria tecnologia, porque não existiu um ‘antes’ em que ela era neutra e um ‘depois’ em que foi cooptada. Ela nasce do interesse pelo acúmulo de excedentes, que historicamente implicou em exploração de seres humanos ou não-humanos.
Além de nos preocupar com as pessoas que programam as máquinas para fazer coisas más, precisamos também nos preocupar com as pessoas que inseriram, dentro do discurso de possibilidade da tecnologia, um discurso salvífico que justifica a exploração. Então, a crítica à civilização não contradiz, mas é consequência dessa avaliação da tecnologia como discurso e como relação de poder, no seu contexto histórico, e quais são as crenças e princípios que dão base a esse discurso.
A linha de raciocínio que une todas essas ideias é que a civilização depende de uma narrativa de redenção. Ela precisa convencer as pessoas de que todo sofrimento produzido pelo progresso será compensado por um futuro melhor, de que toda destruição ecológica será corrigida por novas tecnologias, de que toda forma de alienação poderá ser resolvida por um desenvolvimento ainda maior das forças produtivas. Essa promessa possui exatamente a mesma estrutura das grandes narrativas religiosas de salvação: existe uma queda, existe um sofrimento necessário, existe um caminho de redenção e existe um paraíso prometido. A diferença é que Deus foi substituído pela tecnociência e a graça foi substituída pela inovação. O resultado é que o desenvolvimento tecnológico deixa de ser uma hipótese sujeita à crítica para se tornar um objeto de fé. Questioná-lo passa a parecer tão irracional quanto questionar uma doutrina religiosa para quem acredita nela. É justamente essa transformação da tecnologia em promessa salvífica que impede uma crítica mais profunda da própria civilização, porque qualquer proposta de interromper ou reverter esse processo é imediatamente interpretada como um ataque ao futuro, ao progresso e, em última instância, à própria possibilidade de uma vida humana digna.

Valeu pelo comentário. Realmente esse é um assunto sensível e a primeira reação é quase sempre negativa. Leva um tempo…