Uma crítica ao conservadorismo, do ponto de vista anticiv
A imagem acima foi criada pelos conservadores brasileiros. Ela representa uma luta entre duas forças: a ordem (fundamentos sólidos, que levam à liberdade e prosperidade) e o caos (o acaso, que supostamente leva à escravidão e pobreza). Ela apresenta o representante da ordem como um homem branco engravatando segurando o mundo em suas mãos, uma imagem que remete ao controle humano sobre a natureza, o que é reforçado pelo símbolo da IA, a união entre razão e tecnologia, remetendo à tecnocracia. Até o uso da cor azul reforça isso. O azul está associado à estabilidade, confiança, segurança e autoridade. É uma cor associada tanto ao empresariado quanto ao governo e à polícia. É também uma cor que nós tendemos a opor ao vermelho.
O Brasil não surgiu como um projeto autônomo de organização política, mas como uma colônia de exploração servindo à expansão mercantil europeia. A colonização precisou construir uma narrativa moral que legitimasse a conquista, a escravização e a extração de riquezas. Essa narrativa foi a ideia de que os povos indígenas eram “selvagens” e precisavam ser civilizados.
Quando os europeus encontraram sociedades que viviam sem propriedade privada, sem cristianismo, sem monarquia e sem mercado, o choque cultural foi enorme. Essa diferença cultural foi rapidamente entendida como inferioridade moral. Era preciso convencer a própria Europa de que a conquista não era apenas economicamente vantajosa, mas eticamente necessária. A missão colonial passou a ser uma missão civilizatória.
Foucault mostrou que o poder não depende só da força, mas da produção de discursos que definem quem é considerado normal, racional e civilizado. Quijano apontou como a “colonialidade do poder” se reproduz mesmo depois do colonialismo formal, e permanece na estrutura política da sociedade. Fanon demonstrou como o colonialismo produz uma psicologia da inferioridade nos povos colonizados e uma permanente necessidade de imitar o colonizador. Mbembe mostra como o poder colonial decide quais vidas merecem proteção e quais podem ser descartadas.
No Brasil, a herança colonial é mantida pelo conservadorismo. Ele se apresenta como defensor da “civilização” contra a barbárie. Historicamente, essa barbárie recebeu o nome de indígena, negro, comunista, anarquista, ateu, maconheiro, feminista, gay, travesti e assim por diante. Os alvos mudam, mas a estrutura do discurso permanece a mesma: a preservação da ordem natural está sempre ameaçada por forças do caos.
Essa oposição entre ordem e caos talvez seja um dos elementos mais persistentes do imaginário político conservador. Nunca foi só uma posição econômica, mas uma visão de mundo. A defesa da família, da religião, da autoridade e da disciplina é a continuação simbólica da missão civilizatória que justifica o projeto colonial.
Mas a sociedade brasileira nunca assimilou por inteiro os modelos disciplinares europeus. Ela desenvolveu formas próprias de convivência derivadas da herança indígena, africana e popular. O chamado “jeitinho brasileiro” é uma adaptação histórica de populações submetidas a instituições autoritárias e alheias às suas necessidades. Em vez de uma obediência estrita às normas, desenvolveram-se estratégias de negociação, flexibilidade das regras.
Em Vigiar e Punir, Foucault descreve o surgimento da sociedade disciplinar, caracterizada pela produção de indivíduos obedientes por meio de instituições como escolas, quartéis, prisões, hospitais e igrejas. Essas instituições reprimem comportamentos, moldam subjetividades, produzem hábitos, classificam pessoas e definem padrões de normalidade.
A biopolítica investiga como o poder moderno passa a administrar a própria vida das populações: saúde, sexualidade, natalidade, família, produtividade, segurança e comportamento tornam-se objetos permanentes de intervenção política. O objetivo é controlar corpos rebeldes. Medo do caos é medo do não-humano e da diversidade humana ao mesmo tempo. É o medo do desconhecido ou incognicível, do que não pode ser controlado ou plenamente racionalizado.
Por isso, não é surpreendente que setores conservadores encontrem grande apoio justamente em instituições historicamente ligadas à disciplinaridade, como o exército e a igreja. Ambas produzem normas, hierarquias, identidades e formas de autoridade. Os discursos centrados na obediência e na preservação da ordem encontram terreno fértil nesses ambientes.
A história brasileira produziu uma tensão constante entre o projeto disciplinador herdado da colonização europeia e as práticas sociais da improvisação, da diversidade cultural e da resistência cotidiana às formas rígidas de autoridade. As disputas políticas contemporâneas são expressão dessa tensão histórica.
É por isso que os debates sobre costumes ocupam lugar central na política brasileira. Questões relacionadas ao corpo, à sexualidade, ao gênero, às drogas, à educação e à religião são disputas sobre quais formas de vida serão consideradas legítimas. São disputas biopolíticas. Tanto a esquerda quanto a direita tendem a reduzir essa tensão a uma questão de democracia versus ditadura.
Democracia não é simples governo da maioria. A teoria política diz que a legitimidade democrática não depende apenas da vontade majoritária, mas da proteção de direitos fundamentais, do pluralismo, da igualdade jurídica e das garantias institucionais que impedem a opressão das minorias. As constituições democráticas contemporâneas estabelecem limites ao poder das maiorias justamente porque reconhecem que uma decisão majoritária pode violar princípios democráticos básicos.
Quando uma maioria busca restringir direitos fundamentais, eliminar a participação política ou cidadania de minorias, não está sendo democrática, está atacando seus próprios fundamentos constitucionais. Democracia, na teoria, envolve um compromisso permanente com direitos humanos, pluralismo político, liberdades civis e mecanismos institucionais que impedem que o poder, mesmo quando legitimado pelo voto, se transforme em instrumento de exclusão ou dominação.
O conservadorismo de extrema-direita não é uma opção democrática. Ele é uma continuidade da colonização, atualizada pelos mecanismos biopolíticos de gestão da população. Com a expansão da extrema-direita, a esquerda moderada vai se tornando a única opção democrática.
Anarquistas conseguem entender isso e continuar sem votar na esquerda. Não há contradição. Porque nossa crítica é ao conservadorismo em si, não ao conservadorismo de direita apenas. E a democracia não está necessariamente oposta ao conservadorismo. Quando a esquerda inverte o discurso, e se apresenta como defensora da civilização contra a barbárie, ela responde ao conservadorismo de direita com sua própria versão de conservadorismo. Não importa se ela justifica isso como uma defesa da democracia.
Muitos anarquistas, especialmente nos EUA, se entendem como pós-esquerda ou anti-esquerda por causa disso. Mesmo aqueles que se entendem como esquerda aqui no Brasil muitas vezes defendem uma relação de equilíbrio entre ordem e caos. Daí a interpretação de que o círculo ao redor do A no símbolo do anarquismo seria um “o” de ordem.
Eu me entendo como parte da esquerda radical e anticivilização. Não estou defendendo a ordem, a civilização, a democracia, a razão, o progresso ou qualquer coisa desse tipo. Quando um conservador fala de liberdade e prosperidade, ele está falando de capitalismo. Não estamos lutando por propriedade privada nem por um regime autoritário. Também não estamos lutando exatamente por um regime estatal democrático, mas por uma sociedade anarquista.
A anarquia anticivilização, para mim, não é uma corrente separada das formas mais clássicas do anarquismo, como o anarco-comunismo e o anarco-sindicalismo, e muito menos uma “terceira via” entre esquerda e direita. É uma crítica à civilização, iniciada pelos próprios anarquistas clássicos ou socialistas libertários, que continua sendo desenvolvida por anarquistas contemporâneos, no interior do anarquismo e da esquerda no sentido mais amplo.
É muito comum criticar a anarquia anticivilização como capatista, por exemplo, como algo que requer “a morte de bilhões”. Como demonstrado em outros textos, essa é uma crítica a um espantalho, porque a crítica à civilização não está fazendo propostas de como organizar a sociedade, e sim questionando a possibilidade da estrutura fundamental da sociedade civilizada, que tem uma base industrial e tecnológica, de continuar existindo sem destruir as condições ecológicas de vida humana na terra.
O fato é que toda ideologia radical de esquerda deveria estar questionando sua capacidade de manter os sistemas de atendimento à saúde das pessoas mais vulneráveis no caso de uma derrubada abrupta do sistema capitalista, seja pelo colapso ou pela revolução.
Isso não é meramente uma crítica semântica. Os setores conservadores da esquerda não são conservadores simplesmente porque usam o termo “civilização” ou porque se entendem como representantes da ordem contra o caos, ou usam o termo “anarquia de mercado” e coisas do tipo. Não é só um termo. A questão é que setores da esquerda se “esquecem” que vivemos num território em que existem diferentes modos de vida, e, por uma questão de praticidade ou pragmatismo político, escolhem defender um único modo de vida que seria “correto” ou “natural”.
Isso é visível no punitivismo de esquerda. O punitivismo de esquerda é um fenômeno observável na reação de setores da esquerda aos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, por exemplo, onde pessoas associadas à direita invadiram e depredaram prédios administrativos de Brasília, usando táticas comumente associadas ao anarquismo, mas sem interferência da polícia. Isso levou ao reforço de uma narrativa contra as jornadas de junho de 2013, por exemplo.
Antes limitada aos setores mais “ortodoxos” da esquerda, a narrativa foi ganhando espaço na esquerda mais “heterodoxa” também. O problema é como isso representa um avanço do conservadorismo de esquerda. Os pedidos de “punição exemplar” e os gritos de “sem anistia” foram alimentados por sentimentos de retaliação, e contradizem a posição anti-punitivista do abolicionismo penal, que antes estava ganhando força na esquerda, e agora visivelmente se encontra em baixa.
Embora possamos concordar plenamente com análise que relaciona essa mobilização violenta de massas ao fortalecimento do fascismo, o fato é que esse evento serviu de justificativa para que a esquerda convencional capturasse o discurso punitivista de “zero tolerância”, já tradicional da direita, e usasse o mesmo sentimento populista que o movia, o sentimento de vingança, para converter votos para a esquerda. Se o povo quer coronéis, teremos coronéis de esquerda. Não é coincidência que esse fenômeno se dê em conjunto com a maior participação de policiais e evangélicos de esquerda no governo.
Todos sabemos qual é o discurso da esquerda institucional sobre isso: precisamos ocupar esses espaços, senão eles são tomados pela direita. Mas esse é um discurso simplista, que ignora que ao “ocupar” certos espaços, a esquerda também é ocupada pelas narrativas que contituem a lógica interna desses mesmos espaços. Isso é, em vez de uma resposta ao punitivismo, se cria um punitivismo de esquerda e se relativiza o abolicionismo penal, com uma desculpa de que “não se pode tolerar o fascismo”.
Mas o problema é que a acusação de fascismo foi, em parte, apropriada como mecanismo de campanha publicitária eleitoral pela esquerda institucional. Ela não veio de uma análise antifascista genuína, mas sim de uma banalização do conceito de fascismo e antifascismo, pela necessidade de instrumentalizar o conceito para fins eleitorais. Isso se tornou visível pelo uso da afirmação pública “sou antifascista” entre pessoas que nunca demostraram interesse pelo movimento antifascista, no qual a presença e importância do anarquismo é inegável.
Então vimos pessoas usando símbolos anarquistas, como a bandeira vermelha e preta, que hoje estão apoiando medidas punitivistas que, com toda certeza, amanhã serão usadas pela direita e principalmente contra anarquistas.
Isso porque, infelizmente, o debate sobre “vandalismo” permaneceu praticamente isolado no meio anarquista. A esquerda institucional, por ignorar esses debates, se viu sem repertório teórico ou prático para lidar com a imagem de militantes de extrema-direita quebrando vidraças ou lançando molotovs.
Os anarquistas discutiram exaustivamente as distinções entre o uso de violência pela anarquia e pelos fascistas, por exemplo. Mas, desconhecendo esses argumentos, a esquerda institucional, novamente, acabou reduzindo tudo a anarquia. Essa é uma constante na história do movimento anarquista. Tem sido assim desde a definição do conceito moderno de “atentado terrorista”. E aqui vale uma reflexão sobre o conceito de terrorismo.
A palavra “terrorismo” apareceu pela primeira vez durante a Revolução Francesa. Não era sobre grupos rebeldes, mas sobre a política oficial do Estado francês durante o chamado Reinado do Terror de Robespierre. Os “terroristas” eram justamente os defensores do uso sistemático da violência estatal para proteger a revolução.
Uma mudança de significado ocorre na virada do século XX, quando termo passa a ser associado principalmente a grupos anti-estatais. Isso porque esse período foi marcado por diversos assassinatos políticos, como do czar Alexandre II da Rússia, a imperatriz Elisabeth da Áustria, o rei Humberto I da Itália e o presidente McKinley dos EUA. Alguns desses assassinatos foram cometidos por anarquistas e outros por nacionalistas.
É nessa época que surge a expressão “propaganda pelo ato”, um conceito central do pensamento anarquista. Nesse contexto, terrorismo passou a significar “violência política praticada por atores não estatais”. Depois do 11 de setembro, esse conceito passou a ser usado no cotidiano e contra países inteiros.
Em 2016 surge a chamada Lei Antiterrorismo no Brasil. Ela definiu crimes ligados ao “terror social”, como o uso de explosivos, sabotagem e ataques a infraestruturas. Os anarquistas previram o uso dessa lei para criminalizar suas ações. O texto da lei foi revisado para não impedir protestos políticos, mas ainda os colocava numa limitação legal extremamente restrita.
Os gritos de “sem violência” e “protesto não é crime” escondem um problema estrutural muito mais complexo. Eles aceitam limitações legais e morais que são inerentemente conservadoras. A esquerda institucional tira a ação direta da caixa de ferramentas da política, e depois acusa o anarquismo de ser politicamente inóquo.
É lógico que nem sequer a anarquia anticivilização é imune ao conservadorismo. Existem tendências conservadoras numa série de discursos que se aproximam da crítica à civilização, como por exemplo na ideia de “retorno à natureza” como defesa do que, na verdade, é uma ordem social autoritária, patriarcal ou realmente capacitista.
Mas nós defendos que a anarquia anticivilização perde todo sentido se ela se torna conservadora. É por isso que o debate sobre violência política, dano à propriedade, ação direta, protesto e sabotagem não pode ser deixado de lado. É preciso coragem para dizer isso em tempos que vemos pessoas sendo condenadas a prisão por fazer zines anarquistas ou usar a imagem de um molotov. É preciso coragem também para encarar pessoas dentro do próprio movimento anarquista querendo nos reduzir a eco-fascistas por pura falta de interesse de dialogar.
Não estamos defendendo terrorismo, pois terrorista é o estado. Mas não estamos dispostos a simplificar a questão da desobediência civil com uma visão conservadora, que aceita uma definição legalista de ordem porque se rende ao medo do caos. Num trecho da música Trovoada, da banda El Effecto, lemos a pergunta: “Quem é que tem medo do caos?”. Ser conservador é ter medo do caos.


Valeu pelo comentário. Realmente esse é um assunto sensível e a primeira reação é quase sempre negativa. Leva um tempo…